Como podemos refletir sobre a relação entre Ciência e religião? Quais tensões e contribuições múltiplas podemos identificar nesses saberes na sociedade contemporânea?
Para McGrath (2020), tanto a Ciência como a religião são as
forças mais significativas e interessantes na sociedade contemporânea. Segundo
o autor, Ciência e fé religiosa iluminam o mundo. Tanto os livros sobre a
natureza quanta as Escrituras sagradas procuram oferecer ao homem respostas
sobre a realidade e das discrepâncias entre um e outro surge o conflito. Para o
autor esse conflito surge porque nem a Ciência nem a religião podem responder
satisfatoriamente todas as indagações humanas e por nenhuma delas poderem dar a
última palavra é que o conflito se instala. Juntas, porém, negada a perspectiva
de supremacia de uma sobre a outra, Ciência e religião oferecem uma visão mais
completa e esférica da realidade, complementam-se, dialogam entre si para dar
conta do todo físico e para além do físico.
A tensão
colocada por esse autor está no fato de que a Ciência não consegue transpor
além do que visualiza, além do que toca, manipula ou está fora da alçada
captada pelos sentidos humanos. Aqui o limite se instala e abre-se uma sinergia
dialógica com outras formas de conhecimento. Cientistas ateus dogmáticos como
Richard Dawkins que não dialoga com o conhecimento religioso, mas religiosos
fundamentalistas cristãos ou islâmicos igualmente veem a Ciência como o Satã,
um mal a ser destruído – e o conflito entre Ciência e religião permanece
atuante. McGrath (2020) observa esse conflito como dispendioso uma vez que cada
vez mais a Ciência moderna acaba por fazer os mesmos questionamentos que o
pensamento religioso levantou sobre o Cosmos e além do mais, a Ciência pode
agora chegar ao topo da montanha do conhecimento e acabar encontrando lá um
monte de teólogos sentados à sua espera. O autor quer, com isso, dizer que o
diálogo deve ser franco por meio da atitude epistêmica dos dois lados em que um
escuta o outro para enfrentar seus limites e vulnerabilidades.
A relação
entre ciência e religião além de remontar épocas é marcada por tencionamentos e
complementariedades. Essa característica divide opiniões sobre a discussão dos
limites entre Ciência e religião além das contribuições que cada uma delas
podem oferecer ao ser humano, a pesquisa e a sociedade. Embora hoje em dia as
fronteiras entre Ciência e religião sejam bem delimitadas com metodologia,
técnicas e abordagens próprias a religião foi crucial para o surgimento e
desenvolvimento da ciência. Um ponto interessante dessa discussão é que graças
ao pensamento religioso, isto é, busca do homo religiosus para entender o Universo
e restabelecer uma conexão com um Criador, teria estimulado a criatividade e
argúcia humana para entender as leis que regem nosso planeta.
Segundo Cruz
(2019), além da perspectiva do conflito entre ciência e religião há outra
perspectiva: a relevância do conhecimento religioso em face do triunfo da
Ciência. O autor pontua que embora a Ciência tente responder às inquietações
humanas, as doutrinas religiosas impactaram esse saber ao configurar a dúvida,
com o mesmo espírito da racionalidade moderna, o que existia antes da evolução,
isto é, ex nihilo, ou como pode algo ter surgido no nada, como a matéria
surgiu sem existência prévia? Quais mecanismos permitiram que a matéria
surgisse do nada? A religião aguarda respostas e evidências, em especial, da
teoria da evolução das espécies do naturalista Charles Darwin, que refutou o
dogma da Criação e com ela a visão encantada do mundo. Segundo o autor, a
Ciência não pode descartar as múltiplas experiências que diferentes fiéis
afirmam terem com o sobrenatural. A religião não é apenas um aglomerado de
preceitos e valores éticos e morais, mas se relaciona com fenômenos manifestos
fora da compreensão humana e das leis universais que regem nosso universo. Mas,
a pesar do conflito existente Cruz(2019), acredita existir um diálogo possível
e respeitoso em que a relevância da Ciência e da religião possa equacionar a
mecânica do universo e suas hierofanias.
Para o
autor, o conflito está tão arraigado na sociedade que qualquer maneira de
aproximação entre cientistas e religiosos é vista com desconfiança uma vez que
muitos pseudocientistas e neo-ateus se utilizam da Ciência para “provar” ou
reduzir a religião a mera crença fantasiosa. Contudo, para o autor esse aspecto
do conflito está ligado ao processo de secularização da sociedade, mas
felizmente nem todos os cientistas estão em acordo sobre a neutralidade da
religião e sua irrelevância como conhecimento.
O modelo da
teoria heliocentrista foi desenvolvido por um cônego católico conhecido como
Nicolau Copérnico. A descoberta das leis do movimento planetário também foi
desenvolvido por um religioso luterano chamado de Johannes Kepler. O que seria
dos estudos sobre genética se o monge Gregor Mendel não tivesse lançado as
bases e fundamentos para as pesquisas posteriores? A teoria mais aceita hoje
sobre a origem do universo foi desenvolvida pelo padre Georges Lemaître.
Influenciado pela sua fé em Deus Michael Faraday (que pertencia a uma pequena
seita protestante) descobriu o magnetismo e a eletroquímica. Para Cruz (2019),
questões históricas tornaram a Ciência e a religião como conflitantes,
particularmente a partir do Renascimento criou-se o padrão segundo o qual a
religião era apresentada como trevas e o Iluminismo as luzes da razão.
Para
O´connel (2016) a Ciência não é apenas racionalidade, pois há numeráveis
descobertas científicas que foram realizadas por processos irracionais. Segundo
o autor, Isaac Newton só poderia ter chegado a lei da gravidade por meio da
imaginação, pois o fato de um corpo cair (a suposta maçã) não traz consigo a
fórmula para entender a força da gravidade, mas o inconsciente pode, segundo
ele, sugerir o próximo passo da exploração científica. O desenvolvimento da
química orgânica pelo alemão Friedrich August Kekulê é outro exemplo. Em uma
convenção de1890 explicou aos cientistas da época como chegou a descoberta do
anel de benzênico relatando que tinha sonhado com fileiras de átomos se
retorcendo e girando como serpentes até que uma das serpentes se agarrou a
própria cauda. Por meio dessa experiência disse ter criado a hipótese de que as
estruturas do anel de benzeno seriam circulares. Outro químico chamado Dmitri
Mendeleev sonhou com a tabela periódica e nela previu a existência de três
elementos que até aquela data não eram conhecidos, 15 anos depois todos eles
haviam sido descobertos. Em 1922 o Prêmio Nobel de Física foi do dinamarquês
Niels Bohr que ao estudar a estrutura do átomo viu em sonho um núcleo com
elétrons que girava em torno de si mesmo e a apresentou ao mundo nesse modelo.
Feitas essas
considerações e perspectivas, concorrem para um bom debate o pensamento segundo
o qual, a Ciência sem a religião é manca assim como a religião sem a Ciência é
cega. No Brasil terapêuticas contemporâneas das religiões Afro-brasileiras, ou
as promessas para santos católicos, sessões de cura e libertação entre os
Pentecostais ou cirurgias Espirituais nos centros espíritas, Curandeirismos
indígenas constituem um dentre muitos espaços que dialogam com a neurociência
que vão desde interpretações do efeito placebo até a busca de explicações fora
da racionalidade contemporânea. A neurociência atualmente concorda que a mente
humana pode interferir no s processos de cura de um indivíduo bem como no seu
adoecimento. Na prática, a religiosidade a partir das experiências intrínsecas
ou extrínsecas coincidem com os princípios da psiconeurociência em que a fé é
adotada como uma expectativa positiva. A ciência destaca como práticas
religiosas como meditação, mantras, orações podem modificar sistemas nervosos,
atividades cerebrais, neurotransmissores, produção de hormônios e células do
sistema imunológico. Segundo os cientistas a religião e os processos de cura
utilizado pela Ciência podem propiciar controle dos processos endógenos que
interagem positivamente com os medicamentos e tratamentos convencionais sobre o
corpo e a mente das pessoas (RELIGARE,2019).
REFERÊNCIAS
CRUZ,
Eduardo. R. Religião e Ciência. [s. l.]: Paulinas,2019. [Coleção Temas
do Ensino Religioso].
MCGRATH,
Alister. Ciência e religião: fundamentos para o diálogo. Rio de Janeiro:
Thomas Nelson, 2020.
O´CONNEL,
Mark. Almanaque ilustrado símbolos: origens, significados, utilizações e
revelações: os códigos secretos dos mistérios, magia e sabedoria de todos os
tempos. São Paulo: Escala, 2016.
RELIGARE:
Fé e cura. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009. [Revista de
Ciências das Religiões] – Ano 3- nº6 [Set.de 2009].
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