Documentário Santo forte: a fé e a espiritualidade do povo brasileiro
O documentário exibido pela TV Cultura intitulado: Santo forte: a fé e a espiritualidade do povo brasileiro, de Eduardo Coutinho, é um importante trabalho para a pesquisa em Ciências da Religião e que pode ser analisado pelo menos sob quatro aspectos: a) interpenetração; b) pertencimento religioso; c) proselitismo; d) intolerância religiosa. O primeiro aspecto que salta aos olhos é a influência recíproca do catolicismo com as religiões afrodescendentes e com o Espiritismo. Entre os personagens entrevistados Seu Braulino e Dona Heloísa que ao mesmo tempo professam a fé no catolicismo e frequentam a Umbanda e o Espiritismo, convivem pacificamente no mesmo espaço. Dona Thereza que se declara católica-espírita crer na reencarnação e encontra conforto na religião para sua condição social criando 8 netos numa pequena casa no subúrbio do Rio. A interpenetração antecipa que é possível conviver com as diferenças doutrinais sem os conflitos que motivaram as guerras religiosas, guerras santas ou qualquer nome que se dê para intolerância religiosa. Resulta da interpenetração religiosa a capacidade de criar e recriar, adaptar as influências recebidas aos novos contextos. O exemplo mais conhecido de bricolagem religiosa está na associação dos orixás aos santos católicos ocorrido por ocasião da escravidão no Brasil. Atualmente, outras nuances surgem como as cerimônias no Santo Daime com as comemorações e festividades de santos católicos.
Enquanto
Vanilda que é católica, sonha em ter um filho e faz promessa, na Vila Parque da
cidade: Vera que nasceu no Espiritismo e frequentava o Terreiro acabou se
convertendo à Igreja Universal (de grande presença no estado e conhecida por
demonizar as práticas afrobrasileiras). O proselitismo é uma constante entre os
Pentecostais preocupadas em arrebanhar seguidores para suas igrejas. Dejair,
apesar de ser entusiasta do Espiritismo, do Candomblé e da Umbanda, crer na
existência do Diabo. Outro caso de conversão religiosa é o de Carla, que
trabalha na noite como dançarina e é ex integrante da Universal. A jovem
denuncia que chegou na igreja Universal depois dos abusos sofrido por um pai de
santo na Umbanda (onde frequentava) antes de se entregar a Jesus.
No segundo aspecto, do proselitismo. Dona Lídia que se
identifica com o Cristianismo depois de ter pertencido a Umbanda, hoje renega a
fé e práticas religiosas da antiga prática religiosa. Diferentemente, Braulino
e Marlene casados e pertencentes ao catolicismo, confessa que nunca deixou de
acreditar nos pretos-velhos, nos orixás e santos e seguem suas vidas
compartilhando suas crenças sem ver problema em conciliá-las. Dna Quininha,
apesar de ser devota de Nossa Senhora Aparecida lamenta não poder comungar na
missa porque nunca fez a primeira comunhão, mas se declara católica. Já o Alex,
crer no catolicismo como a religião mais importante, embora segundo ele, não
pratique ou frequente os seus ritos, deu ao filho duplo batismo: no catolicismo
e na Umbanda. Devido a grande oferta religiosa no país, observa-se que as
instituições estabelecidas e consolidadas estão preocupadas em arrebanhar o
maior números de pessoas para suas organizações. Esse fato faz emergir o vasto
mercado religioso que movimenta milhões/ano. Sites, publicações, modas, feiras
voltadas para o público religioso, programas de TV, shows gospel revelam o que
já sabíamos: o sagrado não está morto, mas pulsante.
O
terceiro aspecto envolve o pertencimento religioso; O documentário é revelador
sobre a fé das pessoas que formam a camada mais pobre da sociedade. Ambientado
no estado do Rio de Janeiro. Desemprego, falta de saneamento, ausência efetiva
do Estado, existências aparentemente felizes apesar da precariedade, morando em
barracos, no alto dos morros do RJ. A religião parece chegar para essas pessoas
como uma esperança de vida melhor noutro plano, que não este. Nos lares
brasileiros da periferia se verifica os altares domésticos aos orixás e santos
como um pedido de proteção para suas existências. Entre Pretos-velhos,
Pombas-Gírias, Santo Antônio, Ogum entre outras imagens está presentes nesses
altares o fervor de um povo pelo sagrado, por aquilo que transcende a difícil
sobrevivência.
Por
último, mas não menos importante, o vídeo mostra o aspecto do preconceito. Esse
vem a ser o aspecto mais problemático. Um dos entrevistados conhecido como Seu Taninha, declarado católico apostólico romano e da
Umbanda tendo como Exu Tranca-gira. Crer que é protegido por Tranca-rua e
Marabô porque já levou tiros, facadas e conseguiu escapar da morte. Seu
Taninha critica a Igreja Universal por relacionar as práticas afros ao Diabo,
por isso não concorda com essa compreensão cristã. O mal-estar de seu Taninha
não é o mesmo da academia na luta por respeito e tolerância religiosa? Não é a
poção mais secularizada da sociedade que brada pelo respeito à práticas
culturais diferentes da hegemonia cristã? Por essa razão a existência do
mercado religioso gera disputa e não obstante, conflitos. Lideranças religiosas
mais alteradas acabam achincalhando pequenos grupos insurgentes ou mesmo contra
as religiões mais antigas. Vale tudo para ganhar adeptos no mercado religioso:
ha envolvimentos de igrejas com o tráfico, políticos se beneficiando da fé alheia
para angariar votos em troca de favores, demonizar práticas religiosas e até
agressão física em nome da fé e de Deus.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
No vídeo desperta a atenção de
estudiosos e pesquisadores como as fronteiras doutrinárias criadas pelas
instituições religiosas ao longo dos séculos, podem ser atravessadas pelos
diferentes seguidores. A Igreja Católica que condena a crença na reencarnação e
produziu vasta documentação , Concílios, Cartas papais etc., não consegue
desencorajar que esses “hereges” abandonem tais crenças, sendo muito comum um
católico crer na ressurreição de Cristo e ao mesmo tempo abre sua compreensão
para a crença em vidas passadas. O mesmo acontece com seguidores do Candomblé
que creem na existência do diabo como um adversário de Deus, ainda que esse
ensinamento de um lugar ou plano espiritual (Céu e Inferno) não pertença as
mitologias africanas. Além da doutrina da salvação, outras questões se
apresentam como a monogamia. O relacionamento entre um homem e uma mulher é
aceito como padrão ideal pelas igrejas cristãs. No entanto, Seu Taninha que é
pai de 18 filhos, católico, tem 6 mulheres (o que é condenado pelo Código de
Direito Canônico da Igreja).
Na perspectiva da Fenomenologia a
religião de modo geral, pode ser compreendida a partir do fenômeno como ele se
apresenta. Isto é, o sagrado e suas hierofanias por estarem fora do mundo
empírico, é sentido como algo misterioso, tremendo e fascinante. Diversas
formas de constituições do sagrado são percebidas pelos personagens do
documentário. É o temor dos castigos da divindade ou no fascínio entre o humano
e o sagrado, também está presente no limite da explicação sobre uma experiência
religiosa. As descrições sobre o sagrado quase sempre transborda nossa
compreensão para dar conta do sobrenatural. Para a fenomenologia o sagrado está
oculto e se manifesta progressivamente. Essa manifestação do sagrado ou
irrupção do silêncio, segundo a fenomenologia, se apresenta em três momentos
distintos e inter-relacionados: a experiência vivida pelo fiel; a compreensão e
o testemunho. Como, pois, o divino que é tremendo, fascinante e misterioso se
revela ao humano, essa caracterização fornece à fenomenologia capacidade de
estruturar propriamente o fenômeno por meio da análise histórica, cultural e
antropológica. Em outras palavras, uma vez que o sagrado se manifesta ao mundo
empírico, o pesquisador precisa usar mão dessas hierofanias para compreender
suas singularidades e suas universalidades.
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