Fichamento do Capítulo 4 : SOARES, Afonso. M. L. Religião & Educação: da Ciência da Religião ao Ensino Religioso. São Paulo: Paulinas, 2010
Na obra Religião e Educação: da Ciência da Religião ao Ensino Religioso, o autor procura ilustrar como os conteúdos religiosos estão dissolvidos em várias áreas do conhecimento. Nesse sentido, a melhor proposta de trabalho é o de dialogar com os diferentes campos. É apresentada uma visão sintetizada dessas subdisciplinas e de como o interesse pelo fenômeno religioso vem de longa data. As disciplinas auxiliares da Ciência da Religião são elencadas por Soares(2010) são: a Antropologia da Religião, a Sociologia da Religião, a História da Religião e a Psicologia da Religião. Observa-se que embora haja um aglomerado de disciplinas, esses campos do saber auxiliam a Ciência da Religião em suas pesquisas, metodologias e epistemologias.
No campo disciplinar da História das Religiões a
contribuição dessa disciplina auxiliar pode trazer grandes contribuições à
Ciência da Religião. Em sua perspectiva a História da Religião tratou o estudo
sobre religiões em diferentes abordagens: a História das religiões; a História
dos países e a História da Igreja. A primeira abordagem buscava confirmar as
narrativas cristãs e sua anuência, isto é, havia entre os historiadores uma
concordância com o Cristianismo por um lado e por outro haviam historiadores
que divergiam em oposição a fé cristã fazendo crer que o Cristianismo estava fadado
a sumir com o avanço da tecnologia e o progresso científico. Estes últimos
enfatizavam a laicização, a decadência das crenças religiosas frente o espírito
científico em curso. Já a segunda abordagem enfatizava a importância da
religião na formação dos Estados, das instituições e da cultura de um modo
geral. Por último, a História das Religiões estava inclinada a dar relevo às
questões institucionais da vida da igreja. Essa historiografia, com isso,
omitia acontecimentos que ocorriam fora dos muros dos mosteiros como a
insurgência de novas ideias e movimentos, obras de artes e literária, sobretudo
aquelas que confrontassem a fé católica.
A inovação de um novo fazer historiográfico e que
interessa a Ciência da Religião é tocante a perspectiva da Escola de Annales
com Marc Bloch e Lucien Febvre. Com a Escola de Annales uma nova preocupação
historiográfica se emancipou na História das Religiões e a religião passou a
ser analisada sobre nova ótica. Le Goff cria o conceito de mentalidade para
estudar a formação da consciência coletiva religiosa. Marc Bloch aprofunda o
estudo das mentalidades em suas pesquisas influenciando muitas pesquisas
posteriores sobre o medo, o pecado e a morte. Todas essas dinâmicas atraem as
pessoas para o mundo religioso em suas mais variadas crenças. Annales propiciou
novos itinerários para a pesquisa sobre o fenômeno religioso aumentando as
possibilidades metodológicas nesse campo disciplinar. Outra grande inovação
foram os estudos desenvolvidos por Mircea Eliade que retira o foco da crença em
Deus(es) e em seu lugar o foco recai sobre a experiência religiosa individual
ou coletiva.
Outra ciência que pode subsidiar os estudos sobre o
fenômeno religioso é a Sociologia, visto que a religião integra às sociedades
desde épocas remotas. Desde seu fundamento através de Marx, Durkheim e Weber a
Sociologia dedica estudos sobre o fenômeno religioso. Segundo o autor, entender
a religião e seu funcionamento equivaleria compreender a própria sociedade. Mas
a sociologia não está interessada no seu fenômeno sobrenatural e sim nos
processos sociais que dela emana. Está mais preocupada com a origem da religião
e sua função na sociedade, como seus ritos e mitologias oferecem significados à
vida social, como as doutrinas conseguem moldar o comportamento limitado de um
grupo ou em que medida suas verdades oferecem respostas e sentido à vida das
pessoas.
Destaca-se no campo sociológico o papel da religião nas
sociedades e culturas; a força e permanência da religião ao longo do tempo; a
força social que transforma e atualiza a religião. Essas três operações são
buscadas pelos sociólogos da religião que tem como premissa primordial a origem
social da religião. Mesmo imbuído do rigor metodológico e do espírito
científico, o autor deixa claro que o pesquisador sempre será influenciado por
suas crenças particulares, a cultura a qual pertence e formação acadêmica, os
vínculos institucionais e religiosos se houver. O distanciamento desejado em
assuntos religiosos é tão necessário quanto evidente é a estreiteza entre
subjetividades e pesquisa. Diante dessa constatação a Sociologia propõe o
ateísmo metodológico como maneira de manter a neutralidade da pesquisa, a
empatia pelo objeto de pesquisa. Com isso, os sociólogos creem contribuir para
a honestidade intelectual da pesquisa nas Ciências Humanas. O desenlace da
bagagem cultural, que todo pesquisador carrega, só pode ser possível mediante o
método científico a fim de impedir que interseccionem os resultados das
pesquisas nos mais variados temas.
A Psicologia da Religião como disciplina auxiliar, pode
orientar e oferecer um interessante arcabouço teórico metodológico à Ciência da
Religião para entender o fenômeno religioso. Segundo Soares (2010) a Psicologia da Religião evidencia
e esclarece diversos fatores que o senso comum legaria ao sobrenatural, quando
a priori estão vinculados a processos, estruturas e fatores de origem
psicológica. Nesse sentido, o conhecimento prévio de processos psíquicos é
condição sine qua non para investigar pseudos fenômenos sobrenaturais,
podendo a origem de muitos fenômenos encontrar uma explicação psíquica. Essa
razão, no entanto, não pretende ser um dogma, mas antes uma categoria
hermenêutica em busca da verdade, o que está por trás do fenômeno, isto é a
Psicologia da Religião reconhece seu caráter provisório e incompleto como uma
ciência empírica. Essa postura, no entanto, é imprescindível para a pesquisa.
Seus pressupostos teóricos objetivam compreender o comportamento humano gestado
pela psique sem contudo, absolutizar os dados que detém.
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