Fichamento do Capítulo 4 : SOARES, Afonso. M. L. Religião & Educação: da Ciência da Religião ao Ensino Religioso. São Paulo: Paulinas, 2010

 

Na obra Religião e Educação: da Ciência da Religião ao Ensino Religioso, o autor procura ilustrar como os conteúdos religiosos estão dissolvidos em várias áreas do conhecimento. Nesse sentido, a melhor proposta de trabalho é o de dialogar com os diferentes campos. É apresentada uma visão sintetizada dessas subdisciplinas e de como o interesse pelo fenômeno religioso vem de longa data. As disciplinas auxiliares da Ciência da Religião são elencadas por Soares(2010) são: a Antropologia da Religião, a Sociologia da Religião, a História da Religião e a Psicologia da Religião. Observa-se que embora haja um aglomerado de disciplinas, esses campos do saber auxiliam a Ciência da Religião em suas pesquisas, metodologias e epistemologias.

             A Antropologia pode ajudar nas pesquisas sobre religiões, sobretudo uma Antopologia praticada na fase moderna quando a Antropologia supera a tendência evolucionista que classificava as religiões dentro de uma hierarquia, mas que agora se ocupava em encontrar a origem da religião para poder entender o fenômeno religioso. Algumas teorias surgiram como superação do Evolucionismo como a teoria do padre Wilhelm Schmidt sobre o Ur-monoteísmo. Outra teoria conhecida é a do sociólogo Émile Duskheim e sua proposta do funcionalismo. Tem ainda o emocionalismo de Bronislaw Malinoski, Radcliff Brown e sua ênfase nos rituais e Franz Boas que propõe o particularismo histórico e no relativismo cultural. Já a contribuição de Edward Evans-Pritchard propõe o estudo da cultura a partir de dentro para entender as várias manifestações religiosas. Cada vez mais antropólogos têm se dedicado à experiência subjetiva dos indivíduos com  ênfase na pesquisa e método etnográfico, isto é, na observação participante. Essa perspectiva está inclinada a considerar os mitos, as lendas, o folclore, seus sacrifícios, símbolos, rituais e tudo o mais.

            No campo disciplinar da História das Religiões a contribuição dessa disciplina auxiliar pode trazer grandes contribuições à Ciência da Religião. Em sua perspectiva a História da Religião tratou o estudo sobre religiões em diferentes abordagens: a História das religiões; a História dos países e a História da Igreja. A primeira abordagem buscava confirmar as narrativas cristãs e sua anuência, isto é, havia entre os historiadores uma concordância com o Cristianismo por um lado e por outro haviam historiadores que divergiam em oposição a fé cristã fazendo crer que o Cristianismo estava fadado a sumir com o avanço da tecnologia e o progresso científico. Estes últimos enfatizavam a laicização, a decadência das crenças religiosas frente o espírito científico em curso. Já a segunda abordagem enfatizava a importância da religião na formação dos Estados, das instituições e da cultura de um modo geral. Por último, a História das Religiões estava inclinada a dar relevo às questões institucionais da vida da igreja. Essa historiografia, com isso, omitia acontecimentos que ocorriam fora dos muros dos mosteiros como a insurgência de novas ideias e movimentos, obras de artes e literária, sobretudo aquelas que confrontassem a fé católica.

            A inovação de um novo fazer historiográfico e que interessa a Ciência da Religião é tocante a perspectiva da Escola de Annales com Marc Bloch e Lucien Febvre. Com a Escola de Annales uma nova preocupação historiográfica se emancipou na História das Religiões e a religião passou a ser analisada sobre nova ótica. Le Goff cria o conceito de mentalidade para estudar a formação da consciência coletiva religiosa. Marc Bloch aprofunda o estudo das mentalidades em suas pesquisas influenciando muitas pesquisas posteriores sobre o medo, o pecado e a morte. Todas essas dinâmicas atraem as pessoas para o mundo religioso em suas mais variadas crenças. Annales propiciou novos itinerários para a pesquisa sobre o fenômeno religioso aumentando as possibilidades metodológicas nesse campo disciplinar. Outra grande inovação foram os estudos desenvolvidos por Mircea Eliade que retira o foco da crença em Deus(es) e em seu lugar o foco recai sobre a experiência religiosa individual ou coletiva.

           

            Outra ciência que pode subsidiar os estudos sobre o fenômeno religioso é a Sociologia, visto que a religião integra às sociedades desde épocas remotas. Desde seu fundamento através de Marx, Durkheim e Weber a Sociologia dedica estudos sobre o fenômeno religioso. Segundo o autor, entender a religião e seu funcionamento equivaleria compreender a própria sociedade. Mas a sociologia não está interessada no seu fenômeno sobrenatural e sim nos processos sociais que dela emana. Está mais preocupada com a origem da religião e sua função na sociedade, como seus ritos e mitologias oferecem significados à vida social, como as doutrinas conseguem moldar o comportamento limitado de um grupo ou em que medida suas verdades oferecem respostas e sentido à vida das pessoas.

            Destaca-se no campo sociológico o papel da religião nas sociedades e culturas; a força e permanência da religião ao longo do tempo; a força social que transforma e atualiza a religião. Essas três operações são buscadas pelos sociólogos da religião que tem como premissa primordial a origem social da religião. Mesmo imbuído do rigor metodológico e do espírito científico, o autor deixa claro que o pesquisador sempre será influenciado por suas crenças particulares, a cultura a qual pertence e formação acadêmica, os vínculos institucionais e religiosos se houver. O distanciamento desejado em assuntos religiosos é tão necessário quanto evidente é a estreiteza entre subjetividades e pesquisa. Diante dessa constatação a Sociologia propõe o ateísmo metodológico como maneira de manter a neutralidade da pesquisa, a empatia pelo objeto de pesquisa. Com isso, os sociólogos creem contribuir para a honestidade intelectual da pesquisa nas Ciências Humanas. O desenlace da bagagem cultural, que todo pesquisador carrega, só pode ser possível mediante o método científico a fim de impedir que interseccionem os resultados das pesquisas nos mais variados temas.

            A Psicologia da Religião como disciplina auxiliar, pode orientar e oferecer um interessante arcabouço teórico metodológico à Ciência da Religião para entender o fenômeno religioso. Segundo  Soares (2010) a Psicologia da Religião evidencia e esclarece diversos fatores que o senso comum legaria ao sobrenatural, quando a priori estão vinculados a processos, estruturas e fatores de origem psicológica. Nesse sentido, o conhecimento prévio de processos psíquicos é condição sine qua non para investigar pseudos fenômenos sobrenaturais, podendo a origem de muitos fenômenos encontrar uma explicação psíquica. Essa razão, no entanto, não pretende ser um dogma, mas antes uma categoria hermenêutica em busca da verdade, o que está por trás do fenômeno, isto é a Psicologia da Religião reconhece seu caráter provisório e incompleto como uma ciência empírica. Essa postura, no entanto, é imprescindível para a pesquisa. Seus pressupostos teóricos objetivam compreender o comportamento humano gestado pela psique sem contudo, absolutizar os dados que detém.


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