Leitura do texto: Religião como Supraestrutura e como Infraestrutrura


O autor faz uma abordagem da laicidade na sociedade numa perspectiva filosófica e dialógica com diferentes autores. Explora o conceito de religião a partir de outros dois conceitos: supraestrutura e infraestrutura, evitando com isso, dar juma definição universalizada por um viés hegemônico. Segundo Matos(2013), a universalização é um viés perigoso porque faz generalizações  do pluralismo religioso. Analisando essa premissa inicial do autor encontramos muitas concordâncias com sua afirmação visto que diferentes autores abordam a universalidade como problemática. Segundo Max Weber, a generalização parte de uma oposição aos particularismos culturais. Na concepção de Matos (2013), apesar da sociedade cada vez mais secularizada, isto é, laica, a morte ou finitude da vida humana é uma chave que abre a dimensão religiosa diante do mistério da vida. Sua dimensão religiosa impede que o homem se perceba apenas como uma evolução do acaso, (ou no dizer dos antigos, do nada, nada se cria).

            Pela dimensão religiosa o homem ressignifica o mundo conferindo-o sentido à existência humana e desse modo, justificando-a. Segundo Matos (2013), a consciência de morte, a exposição às intempéries da vida como a dor e o sofrimento – condições da existência, de estar exposto ao fora – necessita de justificativas salutares para sustentar um além-túmulo. Talvez por isso, as civilizações ao longo da história tenham buscado diferentes respostas para a finitude da vida. Dessas inquietações existenciais diferentes povos desenvolveram em seus contextos sócios e culturais suas próprias cosmologias e cosmogonias na tentativa de responder ao inquietante grito da mente: o que vem depois da morte? - Nada. A existência se desfaz no túmulo e a vida acaba – dizem os materialistas. Mas, como não temos a pretensão de dar a última resposta, cristãos, judeus e islâmicos afirmam dentro de uma tradição religiosa ocidental que a vida continua em outro plano através da ressurreição da morte (não discutiremos aqui as disputas soteriológicas que essas três religiões divergem sobre o papel da redenção universal). O contraponto a essa escatologia é dada pelas religiões budistas, crenças animistas, hinduístas, espíritas que asseguram aos seus milhões de seguidores pelo mundo que à morte sucede a reencarnação da alma (ou como queiram recuar a ideia de metempsicose originária do mundo grego, mais especificamente ao filósofo Platão ou aos pitagóricos, segundo o qual a alma transmigraria para outros corpos 3 continuaria a existir). Acrescente-se a essas três perspectivas uma quarta: a crença na ancestralidade em que creem a maioria das tribos de povos originários. Nestas culturas acredita-se que ao morrer o espírito se tornaria uma espécie de deus ou anjo protetor dos clãs e famílias da tribo, garantindo, desse modo, a chuva e as colheitas, a paz e a vitória nas guerras, o ciclo de vida sempre se renova para essas culturas. De acorno com Matos(2023), essa consciência de morte nas mais variadas manifestações desperta nas pessoas a consciência de desejar e, consequentemente, fazer o bem. Talvez tenha sido o despertar da consciência que tenha levado o homem a criar a religião durante a Era Axial ( um argumento defendido por Karen Armstrong). Contudo, como afirmar Matos, a consciência de morte tem poder de libertar e subverter as leis da natureza em que o homem está preso enquanto dure sua existência. No dizer do autor: a consciência de morte coloca os sepulcros nas mãos dos deuses. Ter consciência da morte, da dor e sofrimentos humanos, segundo Matos(2013), aduz à proposição de que é possível a existência de um plano sobre(natural), que está para além da experiência sensível.

            Ao buscar uma definição de religião Matos(2023) faz um recorte fora do convencional conceito de religar, relegere e correlatos para se furtar das armadilhas do dogmatismo, do conceito fechado e, portanto, sectário, ou ainda um sentido contraditório. Em vez disso, o autor está alinhado com a perspectiva de superestrutura e infraestrutura em Marx e Enrique Dussel, mas também na interpretação de Hegel e Fuerbach (concebendo-a como a primeira consciência do homem sobre si), que entende o sagrado como parte do social e não fora dela na qual está inserida a religião. Dentro dessa perspectiva de totalidade social, de cada escapa do social, a religião é encarada como produto da cultura, em síntese não há nada de sobrenatural na religião. Nesse sentido, seus símbolos, altares, ritos, objetos e divindades são construtos do social. - Esse é um primeiro aspecto da laicização da sociedade. Todavia, como adverte Matos (2023), é um erro generalizar todas as religiões como opiato do povo porque há autenticidade na moral praticada, nos conceitos de pureza, nos gestos solidários, nas variadas formas de abstinência e compostura que define a religião dentro de seu panteão simbólico cultural.

            Não obstante, quando a religião intersecciona com a política está inclinada, segundo Matos (2023), a justificar os interesses políticos. O que está, em grande medida, em acordo é que ao se misturar com a política a religião passa a adentrar noutra esfera que não, a religiosa. Como nos adverte Corbesier (1978), no momento em que o estado assume uma ideologia religiosa, corre-se o risco de vê-la transformar-se em dogma. A ideologia religiosa, segundo Matos (2023) pode assumir a forma de um fetiche da mercadoria. Nesse caso, noconsumo de bens e mercadorias, pode ser que as pessoas não se interessem em saber se essa mercadoria é fruto de trabalho escravo, se fere direitos de trabalhadores ou se causa dano ao meio ambiente. E nas sociedades industriais do ocidente há tensões de grupos sociais pela diminuição da poluição de rios, mares e do ar que respiramos – o que matiza como as pessoas fetichizam as mercadorias para seu consumo. Segundo Matos (2023), um aspecto dessa fetichização está no Cristianismo, pois que se insere na superestrutura de uma ideologia fetichista que põe no homem sua centralidade em detrimento de sua relação com o meio ao transformar mercadorias em seus novos ídolos. Outro aspecto entende a religião como infraestrutura e superação do fetichismo, da totalização e universalidade de impérios religiosos. Segundo Matos(2023), a crítica às religiões superestruturais é devido ao seu posicionamento alienante, pois como advoga o autor, as cerimônias religiosas criam em seus fiéis uma espécie de conformação com as estruturas sociais de dominação, seja pela legitimação, seja pela canalização dos esforços para uma realidade sobrenatural, além túmulo. Desse modo, o culto passa a funcionar como mecanismo espiritual-abstrato, anestesiando qualquer ânimo de espírito dissidente, conforma o status quo dominante impossibilitando mudanças na superestrutural social.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

MATOS, Hugo. A. Religião como supraestrutura e como infraestrutura: como fica a liberdade de religião? [s.l.], [s. n.]. [Revista Páginas de Filosofia, v.5, n.1, p. 83-100, Jan/Jun. 2013.

 

CORBISIER, Roland. Filosofia, política e liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. 

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