O campo religioso brasileiro em perspectiva
Segundo Sanchis (1997), as transformações mais significativas
no campo religioso brasileiro aponta para o fato do monolitismo católico ter
chegado ao fim. Realmente ver o catolicismo ser deposto de sua hegemonia
religiosa é um feito inimaginável desde a sua ocupação no território
brasileiro. Segundo o autor, o irreversível declínio dos números de adeptos ao
catolicismo está em constante declínio desde o ano de 1980. Consequentemente,
os números mostram estados brasileiros que aumentam e outros que diminuem ainda
mais o número de pessoas que se declaram católicas ou não católicas. Para o
autor esse fenômeno é revelador, pois desfaz a ideia de que o país sempre foi
homogêneo em matéria de religião. Esse fato o autor relaciona à existência de
uma diversidade interna dentro da própria igreja. Por exemplo, sem deixar de
ser católico muitos grupos foram criados dentro da igreja estando alinhado com
um carisma diferenciado: havendo mais de 20 grupos com características e espiritualidades
próprias como os carismáticos, grupos cursilhos, CEBs como forma diferenciada
de pertencer e aderir aos consensos coletivos. O que os censos veem mostrando,
no entanto, é o avassalador surgimento de grupos declaradamente em oposição ao
catolicismo. Sanchis (1997), com isso, revela dois movimentos antagônico: um
interno que se mantêm católico com suas especificações próprias e outro
externo, de ruptura e distinção.
O autor
reconhece na diversidade religiosa do Brasil o papel da tradição cristã
(catolicismo e o protestantismo) e as religiões de tradição africana. O
catolicismo, segundo o autor, foi identificado desde a colonização como
identitário para a nação – dado seu caráter de sedimentação social. Esse
caráter legou à hierarquia eclesiástica um lugar central na pátria e da qual
muito se beneficiou ao longo de séculos como instância ideológica junto ao
Estado. Do lado do protestantismo histórico, arrefece o número de adeptos que
se identifica com o protestantismo histórico, ao passo que no protestantismo de
linha Pentecostal se percebe maior avivamento e adesão. Para o autor o
Pentecostalismo é um fenômeno avassalador de fiéis em todo território
brasileiro, mesmo naquelas regiões que foram influenciadas por calvinistas e
luteranos. Para o autor, uma característica do Pentecostalismo é sua ruptura
com as denominações tradicionais brasileiras e seu trabalho de angariar fiéis
vem desde as décadas de 1950 e 1960. Representam 10% a 15% da população. As
camadas populares estão entre o público mais participante. O perfil econômico
de seus seguidores ganham entre 2 a 5 salários mínimos, recebendo prosélitos em
massa tanto do catolicismo quanto das religiões afrobrasileiras.
Para
Sanchis(1997), os grupos afrobrasileiros como o Candomblé e a Umbanda souberam
se reinventar fora de seu espaço geográfico, sobretudo através da bricolagem
autoconstruída com o catolicismo, sem no entanto, estarem presos ao seu
universo simbólico. No Brasil, reelaboraram suas práticas e organizações
comunitárias que, segundo o autor, não está ligada à etnia, nação ou cor, mas
se propõe dialogar com elas tornando-se desse modo, universal. Com isso o autor
assegura que essas expressões religiosas não podem ser vistas como mera
permanência, cópia ou repetição. Reconhece o autor que o Candomblé e a Umbanda
como são praticadas aqui no Brasil, diferencia-se do seu ambiente de origem,
pois sendo criativa, reinventou, assimilou e criou. O autor tráz para a
discussão outro elemento catalisador da diversidade religiosa brasileira: o Espiritismo.
Nesse ponto,
da influência catalizadora sob as religiões afros, o autor reconhece o papel
fundamental do Espiritismo nas trocas simbólicas. O autor reconhecendo a
existência de um debate sobre influência do Espiritismo na cultura brasileira
como pertinente, problematiza se não teria o Espiritismo influenciado a cultura
e religiões afrobrasileiras mais que o catolicismo. Além do Espiritismo,
Sanchis (1997) evoca a presença das religiões orientais como o Budismo, o
Hinduísmo Krishna, Seichô no Iê, Perfect Liberty, a Igreja Messiânica entre
outras, na influência das religiões e grupos afros. O autor reconhece assim, um
filão de expressões religiosas que poderia ser considerado como catalizador
para o entendimento da diversidade cultural brasileira. A esse filão poderia
ser acrescentado a Nova Era, o Esoterismo, enfim, para o autor há mil maneiras
de se compreender a diversidade, outras mil formas, mil caminhos, olhares,
perspectivas que se cruzam e interpenetram umas com as outras de modo que não se
pode falar de pureza cult ou de um único centro difusor, no dizer do autor, um
monolitismo religioso.
UMA RELATIVA HOMOGENEIDADE
Segundo o
autor, o imaginário popular é povoado por fadas, duendes, gnomos e uma série de
personificações metafísicas. E essa constatação confere uma relativa
homogeneidade ao campo religioso brasileiro. Relativa porque Sanchis (1997)
denuncia que as festividades religiosas já não possuem tanta força tendo que
contrabalançar com a parcela mais secularizada da sociedade. Razão e moção
estão em disputas no campo religioso: ressurreição de Cristo e coelhinho da
páscoa, nasciemnto de Cristo e Papai Noel, exemplos de dois universos paralelos
que disputam os bens simbólicos. Segundo Sanchis (1997), o campo religioso hoje
está cada vez mais multifacetado. O mercado religioso é uma ressonância de cada
vez menos o campo religioso pertence ao homo religiosus.
Por outro
lado, o autor se ocupa em relatar que o campo religioso brasileiro está
inclinado a ver em práticas do sagrado pagão ou nos cultos aos orixás, um
retrocesso à barbárie, ao pensamento pré-lógico ou animista. Essa visão
evolucionista da história tende a rachaçar as práticas religiosas presentes na
diversidade brasileira. Positivista em sua proposta, o campo religioso precisa
se desvencilhar de suposto superioridade do Cristianismo sobre as demais
espiritualidades. Empobrecimento cerebral, alerta Sanchis, sobre a capacidade
de compreender o fenômeno religioso em suas múltiplas manifestações e
mistérios. O autor conclui com isso, que existe ema dialética, um jogo de
forças no campo religioso brasileiro entre o tradicional e o moderno, entre o
institucional e a livre associação, entre ofertas e demandas no disputado campo
religioso.
Para
Bourdieu há uma dinâmica no campo religioso que pode ser compreendida através
da expropriação do leigo. Segundo o autor, os leigos que buscam um contato com
o sagrado resvalam na mediação de determinada liderança religiosa que faz a
mediação entre o mundo empírico e o mundo metafísico. Como os bens
metaempírico, sobrenaturais são administrados por um feiticeiro (mago ou
adjacentes), os leigos se submeterão à liderança religiosa que os tem como
interlocutor entre Deus e os homens. Isso acontece porque no processo de
organização religiosa o líder religioso ordena o espaço sagrado administrando
os bens simbólicos de que os leigos necessitam. Esse processo é conhecido como
rotinização.
Para Carlos
Pereira (2008), a religião é um instrumento de poder capaz de administrar o
simbólico, persuadir as pessoas e influenciar na política. Configurando com
isso, um importante campo de poder sobre o social. Segundo ele, a Igreja
católica é um exemplo de instância de poder que através de sua articulação
territorial pretende (re)construir o monopólio que outrora possuía em
diferentes campos. O autor reforça que o campo político e o campo religioso
muitas vezes se interceptam de modo que no caso brasileiro autoridades
eclesiásticas e autoridades políticas se favorecem mutuamente de ambos os
campos.
Desse modo,
o campo religioso brasileiro é irrigado por interferências tanto internas
quantos externas, isto é, de outros campos fora do religioso. Isso significa
que, segundo Carlos Pereira (2008), a função da religião na sociedade
ultrapassa seu papel de estabilizar o social, mais que isso, o campo religioso
passa a usurpar o papel de administrar o campo político. Outras vezes ocupa o
papel de legitimadora da ordem vigente por meio de seus sermões, epístolas,
cartas pastorais e discursos oficiais alinhados com o campo político.
Tendo a
religião católica como referência Carlos Pereira (2008) descreve a força do
simbólico sobre o social. O autor faz uma descrição dos elementos simbólicos do
catolicismo que reverbera a força de conectar os fiéis à dominação ideológica.
Portanto, os ritos religiosos como batismo, confirmação, casamento e morte que
perpassam todo o ciclo de vida de um indivíduo é institucionalmente controlado
desde seu nascimento. Para o autor, a prática sacramental é o principal
instrumento de dominação da religião. Elementos como a água, o óleo, sal, o
fogo passa a ganhar novos significados co campo religioso ofuscando a percepção
anterior que se tinha sobre tais elementos. Agora, sacralizados pelos ritos,
esses elementos naturais ganham poderes sobrenaturais e essa configuração
domina o entendimento das pessoas que passam a acreditar no poder simbólico
(canais para acessar o sagrado).
O autor,
alinhado com o conceito de dialética negativa proposto por Adorno, concorda que
o campo religioso cria a dicotomia entre o bem e o mal, o sagrado e o profano,
isto é, enquanto que para um químico o fogo e a água são elementos constituídos
de matéria orgânica, para o senso religioso esses mesmos elementos possuem uma
flutuação empírica, para além do mundo sensível e observável. Nesse sentido, a
religião passa a desempenhar uma repressão ao significado quando ressignifica
para seu deleite, também ela passa a fazer a exclusão do entendimento racional
desafiando as próprias leis físicas da natureza ao manter e assegurar a dicotomia
dos elementos. A separação do mundo entre material e supranatural arrebanha
fiéis no mundo inteiro, o símbolo tem esse poder que é administrado pelo campo
religioso.
Por fim, o
autor analisa o poder simbólico da religião através dos conceitos de espaço
sagrado (a iconografia das catedrais, templos, capelas, etc), campo religioso
(envolvendo os rituais religiosos, as nuances que ligam o homem ao universo
sobrenatural, mas sobretudo, a articulação do social) e lócus numinoso (que
para o autor é como a ação religiosa age sobre a vida das pessoas). Sob esse
aspecto, o numinoso numa sociedade tem a função de dirimir consciências em
relação à exclusão provocada por uma elite dominante. O lócus numinoso é capaz
de manter as permanências sobre o sagrado mesmo em locais distintos como o
rural e o urbano porque o simbólico é administrado por uma instituição
religiosa que ao mesmo tempo atualiza os bens simbólicos e mantém sua estrutura
hierárquica inalterada.
REFERÊNCIAS
CURSO
DE SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO. [módulo 2, aula 5. Pierre Bourdieu e a teoria do
campo religioso].
SANCHIS,
Pierri L. As religiões dos brasileiros. [Revista Horizonte, Belo
Horizonte: 1997, V. 1, n 2, p. 38-43, 2º sem.]
PEREIRA, José C. Religião e poder: Os símbolos do poder sagrado. [s.l.]: 2008 [ Revista eletrônica de Ciências sociais, Ano 2, V. 3, Maio de 2008].
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