O campo religioso brasileiro em perspectiva
O autor reconhece na diversidade
religiosa do Brasil o papel da tradição cristã (catolicismo e o protestantismo)
e as religiões de tradição africana. O catolicismo, segundo o autor, foi
identificado desde a colonização como identitário para a nação – dado seu
caráter de sedimentação social. Esse caráter legou à hierarquia eclesiástica um
lugar central na pátria e da qual muito se beneficiou ao longo de séculos como
instância ideológica junto ao Estado. Do lado do protestantismo histórico,
arrefece o número de adeptos que se identifica com o protestantismo histórico,
ao passo que no protestantismo de linha Pentecostal se percebe maior avivamento
e adesão. Para o autor o Pentecostalismo é um fenômeno avassalador de fiéis em
todo território brasileiro, mesmo naquelas regiões que foram influenciadas por
calvinistas e luteranos. Para o autor, uma característica do Pentecostalismo é
sua ruptura com as denominações tradicionais brasileiras e seu trabalho de
angariar fiéis vem desde as décadas de 1950 e 1960. Representam 10% a 15% da
população. As camadas populares estão entre o público mais participante. O
perfil econômico de seus seguidores ganham entre 2 a 5 salários mínimos,
recebendo prosélitos em massa tanto do catolicismo quanto das religiões
afrobrasileiras.
Para Sanchis(1997), os grupos
afrobrasileiros como o Candomblé e a Umbanda souberam se reinventar fora de seu
espaço geográfico, sobretudo através da bricolagem autoconstruída com o
catolicismo, sem no entanto, estarem presos ao seu universo simbólico. No
Brasil, reelaboraram suas práticas e organizações comunitárias que, segundo o
autor, não está ligada à etnia, nação ou cor, mas se propõe dialogar com elas
tornando-se desse modo, universal. Com isso o autor assegura que essas
expressões religiosas não podem ser vistas como mera permanência, cópia ou
repetição. Reconhece o autor que o Candomblé e a Umbanda como são praticadas
aqui no Brasil, diferencia-se do seu ambiente de origem, pois sendo criativa,
reinventou, assimilou e criou. O autor tráz para a discussão outro elemento
catalisador da diversidade religiosa brasileira: o Espiritismo.
Nesse ponto, da influência
catalizadora sob as religiões afros, o autor reconhece o papel fundamental do
Espiritismo nas trocas simbólicas. O autor reconhecendo a existência de um
debate sobre influência do Espiritismo na cultura brasileira como pertinente,
problematiza se não teria o Espiritismo influenciado a cultura e religiões
afrobrasileiras mais que o catolicismo. Além do Espiritismo, Sanchis (1997)
evoca a presença das religiões orientais como o Budismo, o Hinduísmo Krishna,
Seichô no Iê, Perfect Liberty, a Igreja Messiânica entre outras, na influência
das religiões e grupos afros. O autor reconhece assim, um filão de expressões
religiosas que poderia ser considerado como catalizador para o entendimento da
diversidade cultural brasileira. A esse filão poderia ser acrescentado a Nova
Era, o Esoterismo, enfim, para o autor há mil maneiras de se compreender a
diversidade, outras mil formas, mil caminhos, olhares, perspectivas que se
cruzam e interpenetram umas com as outras de modo que não se pode falar de
pureza cult ou de um único centro difusor, no dizer do autor, um monolitismo
religioso.
UMA
RELATIVA HOMOGENEIDADE
Segundo o autor, o imaginário
popular é povoado por fadas, duendes, gnomos e uma série de personificações
metafísicas. E essa constatação confere uma relativa homogeneidade ao campo
religioso brasileiro. Relativa porque Sanchis (1997) denuncia que as
festividades religiosas já não possuem tanta força tendo que contrabalançar com
a parcela mais secularizada da sociedade. Razão e moção estão em disputas no
campo religioso: ressurreição de Cristo e coelhinho da páscoa, nasciemnto de
Cristo e Papai Noel, exemplos de dois universos paralelos que disputam os bens
simbólicos. Segundo Sanchis (1997), o campo religioso hoje está cada vez mais
multifacetado. O mercado religioso é uma ressonância de cada vez menos o campo
religioso pertence ao homo religiosus.
Por outro lado, o autor se ocupa em
relatar que o campo religioso brasileiro está inclinado a ver em práticas do
sagrado pagão ou nos cultos aos orixás, um retrocesso à barbárie, ao pensamento
pré-lógico ou animista. Essa visão evolucionista da história tende a rachaçar
as práticas religiosas presentes na diversidade brasileira. Positivista em sua
proposta, o campo religioso precisa se desvencilhar de suposto superioridade do
Cristianismo sobre as demais espiritualidades. Empobrecimento cerebral, alerta
Sanchis, sobre a capacidade de compreender o fenômeno religioso em suas
múltiplas manifestações e mistérios. O autor conclui com isso, que existe ema
dialética, um jogo de forças no campo religioso brasileiro entre o tradicional
e o moderno, entre o institucional e a livre associação, entre ofertas e
demandas no disputado campo religioso.
Para Bourdieu há uma dinâmica no
campo religioso que pode ser compreendida através da expropriação do leigo.
Segundo o autor, os leigos que buscam um contato com o sagrado resvalam na
mediação de determinada liderança religiosa que faz a mediação entre o mundo
empírico e o mundo metafísico. Como os bens metaempírico, sobrenaturais são
administrados por um feiticeiro (mago ou adjacentes), os leigos se submeterão à
liderança religiosa que os tem como interlocutor entre Deus e os homens. Isso
acontece porque no processo de organização religiosa o líder religioso ordena o
espaço sagrado administrando os bens simbólicos de que os leigos necessitam.
Esse processo é conhecido como rotinização.
Para Carlos Pereira (2008), a
religião é um instrumento de poder capaz de administrar o simbólico, persuadir
as pessoas e influenciar na política. Configurando com isso, um importante
campo de poder sobre o social. Segundo ele, a Igreja católica é um exemplo de
instância de poder que através de sua articulação territorial pretende
(re)construir o monopólio que outrora possuía em diferentes campos. O autor
reforça que o campo político e o campo religioso muitas vezes se interceptam de
modo que no caso brasileiro autoridades eclesiásticas e autoridades políticas
se favorecem mutuamente de ambos os campos.
Desse modo, o campo religioso
brasileiro é irrigado por interferências tanto internas quantos externas, isto
é, de outros campos fora do religioso. Isso significa que, segundo Carlos
Pereira (2008), a função da religião na sociedade ultrapassa seu papel de
estabilizar o social, mais que isso, o campo religioso passa a usurpar o papel
de administrar o campo político. Outras vezes ocupa o papel de legitimadora da
ordem vigente por meio de seus sermões, epístolas, cartas pastorais e discursos
oficiais alinhados com o campo político.
Tendo a religião católica como
referência Carlos Pereira (2008) descreve a força do simbólico sobre o social.
O autor faz uma descrição dos elementos simbólicos do catolicismo que reverbera
a força de conectar os fiéis à dominação ideológica. Portanto, os ritos
religiosos como batismo, confirmação, casamento e morte que perpassam todo o
ciclo de vida de um indivíduo é institucionalmente controlado desde seu
nascimento. Para o autor, a prática sacramental é o principal instrumento de
dominação da religião. Elementos como a água, o óleo, sal, o fogo passa a
ganhar novos significados co campo religioso ofuscando a percepção anterior que
se tinha sobre tais elementos. Agora, sacralizados pelos ritos, esses elementos
naturais ganham poderes sobrenaturais e essa configuração domina o entendimento
das pessoas que passam a acreditar no poder simbólico (canais para acessar o
sagrado).
O autor, alinhado com o conceito de
dialética negativa proposto por Adorno, concorda que o campo religioso cria a
dicotomia entre o bem e o mal, o sagrado e o profano, isto é, enquanto que para
um químico o fogo e a água são elementos constituídos de matéria orgânica, para
o senso religioso esses mesmos elementos possuem uma flutuação empírica, para
além do mundo sensível e observável. Nesse sentido, a religião passa a
desempenhar uma repressão ao significado quando ressignifica para seu deleite,
também ela passa a fazer a exclusão do entendimento racional desafiando as
próprias leis físicas da natureza ao manter e assegurar a dicotomia dos
elementos. A separação do mundo entre material e supranatural arrebanha fiéis
no mundo inteiro, o símbolo tem esse poder que é administrado pelo campo
religioso.
Por fim, o autor analisa o poder
simbólico da religião através dos conceitos de espaço sagrado (a iconografia
das catedrais, templos, capelas, etc), campo religioso (envolvendo os rituais
religiosos, as nuances que ligam o homem ao universo sobrenatural, mas
sobretudo, a articulação do social) e lócus numinoso (que para o autor é como a
ação religiosa age sobre a vida das pessoas). Sob esse aspecto, o numinoso numa
sociedade tem a função de dirimir consciências em relação à exclusão provocada
por uma elite dominante. O lócus numinoso é capaz de manter as permanências
sobre o sagrado mesmo em locais distintos como o rural e o urbano porque o
simbólico é administrado por uma instituição religiosa que ao mesmo tempo
atualiza os bens simbólicos e mantém sua estrutura hierárquica inalterada.
REFERÊNCIAS
CURSO
DE SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO. [módulo 2, aula 5. Pierre Bourdieu e a teoria do
campo religioso].
SANCHIS,
Pierri L. As religiões dos brasileiros. [Revista Horizonte, Belo
Horizonte: 1997, V. 1, n 2, p. 38-43, 2º sem.]
PEREIRA, José C. Religião e poder: Os símbolos do poder sagrado. [s.l.]: 2008 [
Revista eletrônica de Ciências sociais, Ano 2, V. 3, Maio de 2008].
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