O Quebra de 1912

 

O trabalho está dividido em abordagens do ponto de vista histórico rumo à invasão aos Terreiros de Candomblé, seguidos da intolerância religiosa de populares com participação do Estado. O evento ocorrido em 1912 no estado de Alagoas ficou conhecido como Quebra de Xangô. O autor põe em relevo os conteúdos políticos e sociais na descrição do fenômeno datando os eventos e nomeando os personagens diretamente envolvidos. No primeiro capítulo o autor faz uma historiografia da cidade que vai 1815 a 1912. A atenção do autor está concentrada em descrever os decretos, a vegetação, geologia da cidade, clima, rios, limites com outros estados, importância dos engenhos, enfim, faz uma cronologia de sua ascensão como município emancipado trazendo muitas fotografias como fonte de pesquisa. Apenas no último parágrafo do capítulo 1 menciona brevemente o Quebra como um evento político entre as oligarquias Malta e Lima. Esse componente político estava, segundo o autor, vinculado a um aspecto religioso que, segundo ele, serviu de motivação para o uso de violência contra terreiros de Candomblé situados na parte baixa de Maceió Bebedouro, Ponta Grossa, Poço, Jaraguá, Trapiche, Praça Sinimbu dentre outros.

            No capítulo dois, depois de fazer um panorama dos conflitos políticos sobre a abolição ou manutenção da economia escravocrata que dividia a opinião dos republicanos, Pimentel (2022) destaca como os positivistas estavam desejosos em eliminar a religião no país por verem nela uma prática arcaica de um país que ora se abria ao desenvolvimento. Embora a Carta Constitucional de 1824 garantisse liberdade religiosa às diferentes manifestações religiosas no Brasil, esse dispositivo foi desrespeitado pelo próprio Estado de direito. Além do que a presença da religião africana não representava sequer uma ameaça as religiões estabelecidas (Judaísmo, Islamismo, Catolicismo) em solo brasileiro, pois, segundo o autor, as disputas religiosas só ocorreriam na segunda metade do século XIX com a vinda de imigrantes europeus de fé evangélica. Ainda assim, como assegura Neves (2012) os Terreiros foram invadidos por alagoanos vinculados à Liga dos Republicanos Combatentes.

            Para Pimentel(2022), o Quebra de 1912 envergonha o estado alagoano sendo uma página de violência que não pode ser virada. Houve tentativas de apagamento dos fatos, de legar ao esquecimento o ocorrido. A imprensa alagoana ateava fogo nos Terreiros ao reforçar em sua publicação à época que se tratava de bruxaria (e naquele contexto, deveria ser eliminado). Pouco ou nenhum esforço foi feito para abrandar às vítimas. Invasão de propriedade, violência que culminou em morte, respeito à legislação em vigor, tolerância religiosa, caridade, amor ao próximo e tudo o mais era posto na fogueira. Por muito tempo permaneceu no silêncio a investida policial com os braços fortes do Estado republicano. Segundo o autor, esse silêncio talvez esteja ligado ao fato de que em outros estados (como a Bahia) o mesmo episódio tenha ocorrido com repressão mais violenta do que foi o Quebra de 1912. - o que de forma alguma justificaria.

 

            No terceiro capítulo Pimentel (2022) esclarece que o silêncio sobre o Quebra de Xangô só foi quebrado graças aos trabalhos seminais de personalidades como Theó Brandão, Manuel Diégues Júnior, Abelardo Duarte, José Lages Filho, Solange Berard Lages, Carmen Lúcia Dantas. A publicação de obras como “Catálogo Ilustrado da Coleção Perseverança” e “Xangô rezado baixo: religião e política na primeira república”. O autor faz uma defesa da pluralidade cultural do país ao colocar em relevo a miscigenação e sincretismo religioso como elementos importantes na constituição da cultura brasileira. Trata da ascensão de personagens chaves como Euclides Malta, Joaquim Paulo Vieira Malta, Fernandes Lima, a armada paramilitar Liga dos Republicanos, entre outros. A historiografia nesse período estava inclinada a narrar a vida e obra de personalidades políticas e as narrativas deixavam de fora personagens de pouca ou nenhuma projeção social.

            O autor traz nomes de importantes personalidades do cenário político como José Fernandes Lima, Euclides Vieira Malta, Miguel Soares Palmeira, Barão de Traipu, Miguel Omena, Manuel Luiz da Paz. Problematiza questões de exploração do trabalho como o tráfico negreiro, a Liga dos Republicanos Combatentes, bloco de carnaval clube dos morcegos e o garimpo nas fazendas. Todos esses atores sociais estavam interligados ao evento que se denominou Quebra de Xangô. Talvez por envolver nomes de pessoas de enorme prestígio social e poder o Quebra de Xangô tenha ficado muito tempo no esquecimento, uma tentativa de legar o evento ao ostracismo ou apagamento dos fatos. Há lacunas a serem preenchidas sobre esse evento singular em Alagoas que aguarda seu desvelo frente às informações superficiais, incompletas ou desprezadas. Contudo, esse cenário levou ao tangimento dos terreiros para outros pontos da cidade e até estados; a fuga de candomblecistas para não morrerem ou por medo de represálias; surgimento de uma prática denominada de Xangô rezado baixo (sem tambores e palmas, para não perturbar a ordem vigente). Segundo Neves (2012), em 1939 o médico pernambucano Gonçalves Fernandes foi o precursor em romper o silêncio sobre o Quebra de Xangô. O médico observa essa peculiaridade no Candomblé alagoano chamando-o de nova seita afro-brasileira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            É digno de nota que as religiões afros tenham se instalado fora do que hoje se conhece como zona metropolitana de Maceió. Ou seja, em zonas mais nobres e comerciais da capital. O que hoje ocorre é o inverso: os terreiros são buscados na parte alta da cidade dada a motivação que o Quebra de 1912 configurou. Nenhuma memória patrimonial de seu estabelecimento in locu foi preservada, sendo as práticas religiosas de matriz africana confinadas à periferia. Isso é esclarecedor, pois, estabelece a existência de uma fortaleza que divide a cidade em duas: uma é a parte baixa, nobre, situada na região litorânea, branca, católica e outra é a parte alta, pobre, metropolitana, miscigenada onde abunda diferentes práticas religiosas.  Como lamentou Secchi (2019), o fato da cidade que havia sido idealizada como projeto de integração entre as pessoas e culturas diferentes, um lugar seguro a todos e garantidora dos direitos individuais e coletivos, protegido da violência da natureza e humana, um lugar de magia, tecnologia e desenvolvimento tenha, porém, sido obliterado de seu projeto original vindo a ser um muro de separação entre ricos e pobres, uma máquina excludente de grupos étnicos e religiosos, de divisão social do trabalho, de isolamento étnico e de gênero.

            Um século depois do ocorrido o Estado de Alagoas, através do governador Teotônio Vilela Filho (PSDB/AL), veio a público pedir perdão aos Terreiros de Candomblé e seus seguidores. Através do decreto Nº 18041 de 01 de Fevereiro de 2012. 100 anos depois… Qual o efeito desse ato significativo? No Nordeste, além das mulheres negras terem baixa representatividade nos cargos públicos, nenhuma mulher negra foi eleita para vereadora nas eleições de 2020. Cargos de poder ainda são ocupados pela maioria branca e essa constatação sugere implementação de políticas públicas mais eficientes. A baixa representatividade de mulheres negras na política municipal, estadual e nacional é um cenário de reprodução colonialista e de preconceito estrutural  (PEREIRA, 2024). O pedido de perdão foi um reconhecimento importante da violência perpetrada pelo Estado, mas é preciso avançar nas políticas públicas voltadas para determinado seguimento da sociedade que há séculos têm seus direitos violados.

            A ineficiência do poder público tem colaborado para manutenção da estrutura colonialista. A falta de interesse acadêmico é outro ponto relevante em que Neves (2012) sugere como necessária uma revisão bibliográfica desse evento. Por mais de 70 anos o Quebra ficou legado ao ostracismo pelas autoridades políticas, pela imprensa alagoana e até pelos intelectuais da academia. Pode-se supor aqui diante dessa lacuna que, nessas décadas de negligência, o Quebra teve sua história contada através da oralidade, sendo memorizada nos círculos de praticantes dos Terreiros, pelos sobreviventes e partícipes do dia 02 de Fevereiro de 1912. Não foram apenas os tambores que silenciaram dando origem ao que se chamou de Xangô rezado baixo. Dito de outra forma, os dirigentes políticos naquela época e contexto se acovardaram ao não tomarem providências contra agressores aos Terreiros. Dizemos se acovardaram porque a economia da ação política foi temorosa e omissa diante da violação de um dispositivo constitucional de liberdade de culto e de expressão. O Estado se acovarda com seu silêncio e falta de bravura por, portanto há momentos na vida que ficar em silêncio – silêncio político – constitui erro gravíssimo de omissão e consenso. Somente em 1936 um médico pernambucano descortinará o episódio através da primeira publicação falando sobre o Quebra de 1912 revelando, dessa maneira, o silêncio político, da imprensa alagoana e da própria academia. Há muitos pontos a serem amarrados, como por exemplo, a reaproximação do Estado com a religião católica (mesmo depois da transição do Império para a República). Aqui um parêntese: como o governo alagoano que perseguiu os Terreiros permitiu sua prática e funcionamento em Maceió?

            Pareceu-nos que muitas das narrativas sobre o Quebra de Xangô ainda é uma herança historiográfica sobre personalidades e documentos oficiais – uma historiografia vista de cima para baixo. A escrita sobre o Quebra de Xangô precisa colocar o protagonismo nos Terreiros e seus seguidores numa ótica inversa: uma visão de baixo para cima. Numa perspectiva das Ciências da Religião o Quebra de Xangô pode ser analisado pela teoria da iconoclastia, pois que se trata da destruição de objetos sagrados, artístico e de patrimônio cultural. Através da teoria iconoclasta pode-se desdobrar outros elementos além do poder político que estão velados como, por exemplo, a intolerância religiosa e o preconceito racial.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

NEVES, Rafael. U. Xangô rezado baixo: religião e política na Primeira República. São Cristóvão: Editora UFS; Maceió: EDUFAL, 2012. [ p. 315-319]

 

PEREIRA, Michaelle. Maceió não elegeu nenhuma mulher negra nas eleições de 2020: “lutar contra a memória colonizadora”. Disponível em https://www.eufemea.com/2024/06/maceio-nao-elegeu-nenhuma-mulher-negra-nas-eleicoes-de-2020-lutar-contra-a-memoria-colonizadora/ Acesso em 03 de Jan. de 2025.

 

PIMENTEL, Diogo F. B. O quebra de Xangô de 1912: uma reflexão histórica. [trabalho de conclusão de curso], Maceió, UFAL/ICHCA, 2022. Disponível em https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/123456789/9106/1/O%20quebra%20de%20Xang% C3%B4%20de%201912:%20uma%20reflex%C3%A3o%20hist%C3%B3rica.pdf. Acesso em

03 de Jan, de 2025.

 

SECCHI, Bernardo. A cidade dos ricos e a cidade dos pobres. [s.l.]. [s.n.], 2019.

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