Religião e Ecologia II

 

1. Como o sistema de dádivas se conecta a relação religião/natureza?           

 

            Há um quadro de relativa ameaça e preocupação sobre o meio ambiente no mundo global que precisamos compreender suas nuances diante da oposição que alguns grupos se posicionam. Dizemos relativa porque tratados são feitos e desrespeitados, acordos são levantados e descumpridos, milhões de investimentos em pactos para salvar o mundo de uma hecatombe global mobilizam diversos profissionais, cientistas e interessados, mas quase sempre se chocam com os interesses econômicos. A bola da vez agora será a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 ou simplesmente, COP 30 (já é a trigésima tentativa de conscientizar os dirigentes e grandes empresários (potenciais exploradores dos recursos naturais) a se mobilizarem com a questão.

 

            Segundo Leonardo Boff, a existência desse quadro preocupante está na pauta do dia, na mesa de negociações sobre o meio ambiente e o impacto aos seres vivos de modo geral. Diane do exposto, a modernidade constituiu um mito expresso sob a égide do progresso e tecnologia para todos. O autor ao reconhecer os avanços científicos e tecnológicos para a vida humana quer chamar a atenção para o problema do desenvolvimento em escala linear e esgotamento dos recursos naturais às futuras gerações. O frei denuncia que o espírito desenvolvimentista execrou uma camada social enquanto beneficiava uma elite detentora dos meios de produção. Além da dominação de uma classe sobre a outra, o problema ganhou proporções urgentes porque a natureza, segundo o autor, foi devastada e em alguns casos o problema não pode mais ser revertido o que compromete a própria existência humana.

 

          Hölderlin reage a esse embate (dilemas contemporâneos sobre a questão ecológica) sugerindo uma consciência holística participante, visto que o ser humano é parte da natureza e não algo exterior que pode desolar o meio sem que isso não o atinja. Segundo o autor os interesses particulares devem estar em acordo com os interesses coletivos formando desse modo um todo harmônico, em outras palavras, as pessoas devem abrir mão de seu egoísmo, isto é, de satisfazer seus desejos de consumo em prol da sustentabilidade do planeta. Nesse ponto os objetivos devem ser coletivos e não mais individuais, a questão que se coloca é o desenvolvimento de uma ética universal. A justificativa para criar nova ética, está na arrogância humana, na violência com que tira os recursos naturais sem levar em conta a destruição da natureza. Nas ações humanas movidas por interesse econômico. O que Hölderlin propõe, no fundo, é a imediata conjunção entre homem e natureza. Urge a necessidade por uma conscientização que é preciso salvar primeiro a natureza para salvar o homem. ­ Atender as necessidades do meio ambiente significa atender ao homem e não ao contrário.

 

            Em linhas gerais, essa discussão que tem implicações políticas, sociais e econômicas nos remete ao conceito de dádiva de Marcell Mauss e, consequentemente, trás para o debate a dimensão espiritual ou religiosa em que a religião pretendeu desde épocas arcaicas estabelecer fortes vínculos entre os indivíduos numa determinada realidade social operante. Isto é, dentro do conceito de dádiva há uma correspondência que o autor chama de trocas entre quem oferece e quem retribui. Do mesmo modo, o Candomblé e suas práticas religiosas se baseia no tripé: dá-receber-retribuir expressos em seus rituais e oferendas com a mãe-Terra. A natureza é importante para o Candomblé porque é uma religião que surge com a natureza, isto é, como lembra Eliáde, diferentemente do sagrado construído pelo homem nos seus templos, mesquitas, estupas, pirâmides, sinagogas e similares, o sagrado no Candomblé se conecta ao natural, isto é, à natureza. Uma vez que as forças mitológicas dos orixas são representações do sagrado natural e imanente a relação do homem com a natureza é fortalecida por meios de seus rituais religiosos.

 

            As práticas religiosas do Candomblé coadunam com a preservação da natureza na medida em que seus seguidores retiram da natureza os recursos necessários e em troca devolvem a preservação, a harmonia com o meio, sem degradá-lo, nem poluí-lo como o fazem a indústria movida por interesses econômicos. Esse é um dos aspectos da dádiva no Candomblé: dar e recebe da natureza, recebe e devolve com harmonia e preservação ecológica ao tirar somente o necessário e pelo rito refloresta o meio. Em suas representações simbólicas o Candomblé exercita a dádiva por meio de seus gestos e articulação dialógica com a natureza.

            No Candomblé também seus símbolos e pejis significa a dádiva entre objetos e ideias, pois é produto das relações do homem com o mundo físico e espiritual. Seu sentido é objetivo e visível, embora esconda um ensinamento moral, um sentimento profundo é por meio da dádiva que se evoca os orixás e emoções a impelir as pessoas a agirem na construção do ethos. O ethos aqui se distancia no ethos ocidental moderno que separa sujeito do objeto, mundo moral do mundo natural, mas sobretudo, refere-se a um ethos ecológico capaz de construir um habitat mais harmônico sobre questões ambientais e em oposição a visão antropocêntrica.

            Outro ponto convergente sobre a dádiva no Candomblé diz respeito ao conhecimento ancestral nas Religiões de Matriz Africana. Esse conhecimento como assegura Hölderlin, se manifesta na relação homem-natureza sob o aspecto da biocêntrica e comunitária. Nesse sentido, o Terreiro funciona como espécie do Cosmos em escala reduzida ou microcósmica, um núcleo interno interpretativo da consciência ecológica. Nos Terreiros há uma espécie de troca simbólica entre dar e receber sem afetar a biodiversidade, mas integrando-se a ela. Por meio dessas trocas ritualísticas pais e mães de santo ensinam seus filhos a ancestralidade e as obrigações morais para com a natureza. A cura pelas plantas e a importância de manter as árvores, o uso ritual dos chás, a caça para a subsistência, mantendo sempre o cuidado em retirar somente o necessário e ao contrário da ética moderna, devolver o excedente à mãe-natureza.

 

 

2. A educação ambiental é base para o ethos religioso ligado ao Candomblé? Como isso tenciona em relação ao extrativismo e o sacrifício de animais de forma ritualística?
(Pode optar, se preferir, para a análise da Umbanda, do animismo indígena ou das religiões amazônicas).

 

            Segundo Höling o ethos dominante na sociedade é antropocêntrico e individualista. O ethos desejado para o desenvolvimento de uma ecologia adequada pode ser encontrada no biocentrismo que é uma oposição radical ao antropocentrismo. Aforça do biocentrismo reside no fato de que os debates sobre sustentabilidade e os valores ecológicos inspira-se em ações de preservação da vida e dos ecossistemas de todo o planeta. Diferentemente da tendência Gama, a ética biocêntrica como o próprio nome sugere coloca a vida (bio) no centro das discussões sobre ecologia. Mais que isso, refere-se a ecologia profunda que se baseia no valor intrínseco da vida dos seres. Para o autor, os adeptos da ecologia profunda manifestam suas ações alinhadas com sua espiritualidade ecológica aproximando o homem à natureza por meio da cooperação.

            A proposta do autor é selar compromissos ecológicos tanto com a participação da ciência como também da religião, unindo tecnologia e conhecimento ancestral do cuidado com a terra. O limite está que nenhuma dessas correntes perceberam que para a realização de um projeto ecológico é necessário a ética do sacrifício em prol da natureza. Sacrifício entendido como fraternidade e cooperação, amor à vida e compreensão de seus ciclos, portanto a absoluta preservação das várias espécies.

            Para Samyra Crespo, o caminho aberto para o debate sobre o problema da sustentabilidade aponta que soluções podem ser buscadas na educação ambiental por meio de investimento maciço nesse domínio. Na compreensão da autora como a degradação da natureza possui um viés cultural em que os valores econômicos se sobrepõem aos valores da dignidade humana, a autora sugere que a solução está na própria cultura, isto é, mudando-se a mentalidade do homo economicus, moldado pela cultura antropocêntrica, transforma-se o cenário social. A autora apela para mudanças na mentalidade sobre o usufruto da Terra e suas riquezas, no modo como o homem explora os recursos naturais. Segundo ela, a educação ambiental é a via privilegiada para o equacionamento do problema ambiental e suas nuances.

            A perspectiva da educação ambiental apela para o uso dos recursos com menos agressividade ao maio ambiente, pois a competitividade e a corrida pelo ouro contribuiu para a degradação do meio ambiente, uma vez que a lógica da produção para os mercados consumidores em escala mundial causou um descompasso no ciclo de renovação de recursos. Outro apelo diz respeito a formação de uma nova consciência às novas gerações no gerenciamento dos recursos por meio de uma lógica sociobiológica. Pela lógica sociobiológica o sujeito é reintegrado na natureza e encontra-se como parte dela. Numa ponta tem-se uma religião de massas, católica, e cujo ethos se orientava pela prerrogativa: dominai a natureza e todos os seres vivos, noutra ponta tem-se a religião das comunidades com um ethos de retirar da natureza apenas o suficiente para a sobrevivência e práticas ritualísticas, como por exemplo, as religiões de matriz africana. Uma é antropocêntrica, outra é biocêntrica, enquanto um explora por ganância, polui, desrespeita o próximo e se move pelo mero enriquecimento, outro retira da natureza por ignorância, necessidade e falta de oportunidade. Têm-se assim, dois pólos antagônicos, dois ethos, dois modos de ser e de se relacionar com o mundo. O extrativismo ambiental explora com toda sua força os recursos naturais como nunca antes ocorrido, flora, fauna, minérios

Objetores tencionam que o sacrifício de animais em rituais religiosos milenares constitui crime ambiental, no entanto esquecem-se que o homo religiosus é movido pelo amor com a natureza e não a agride como o faz deliberadamente pela cobiça o homo economicus. A utilização dos recursos naturais pelas religiões da natureza chegam a ser irrisório em demasia frente aos ataques que o projeto de ocidentalização engendrou, sobretudo desde a modernidade instalando colônias de exploração dessas riquezas sobre os países subdesenvolvidos.

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