Religião e Ecologia III

 

1. Podemos tecer diferenças entre a posição ecológica de Francisco de Assis (comentada por Leonardo Boff) e a posição defendida pelo Papa Francisco na Encíclica: Laudato si? Não estaríamos lidando, neste caso, com análises feitas dentro da tensão entre Mordomia cristã, ecojustiça e espiritualidade da criação (elementos debatidos por William Renan dos Santos)?

 

            A preocupação com a natureza e a relação do homem com o meio ambiente perturba o espírito humano desde longa data. Os gregos a compreendiam como o logos ou estudo das relações entre todos os seres vivos, o oikos, e no sentido religioso veio a significar a responsabilização do homem com a Criação divina.

            Segundo Boff (2007), a ecologia já era tratada pelo frade italiano Francisco de Assis no século 12 antes mesmo da propagação da emergência do tema para os dias de hoje, nove séculos depois. Francisco de Assis fundava no seu tempo um novo Humanismo que se pautava na ética do cuidado, no dizer de Boff, uma ecologia exterior mais geral e pautada com a Criação e outra ecologia de fundo interior e ligada à ternura, a compaixão, ao amor e a veneração. Mais que isso, Francisco teologiza uma nova cristologia ao descobrir a humanidade de Cristo nos leprosos (indivíduos considerados desprezíveis) de seu tempo. Francisco inovou em muitos aspectos no seu tempo: criara o primeiro presépio vivo funcionando como um livro a Céu aberto instruindo aos que não sabiam ler, assim como os sofistas que transmitiam ensinamentos filosóficos, São Francisco fundou uma ordem religiosa itinerante com o objetivo de levar os ensinamentos de Cristo onde a evangelização não chegava.

 

            Um ponto de tensão que emerge das religiões com o passar dos tempos diz respeito as próprias cosmologias religiosas, que antes serviam de liga social, passam por um processo de decadência, precisando serem ressignificadas. Como a sociedade não é estática, as cosmologias necessitam serem reatualizadas. É nesse momento de reorganização das doutrinas e mandamentos que intensifica-se as tensões entre conservadores e progressistas. Segundo Santos (2024), a religião tem o poder de fundamentar um dever ou papel social aos seus seguidores ao conferir uma ética do cuidado, uma ecojustiça com o meio ambiente. Isso é particularmente verdadeiro, pois a esfera religiosa confere significado e sentido à vida das pessoas na medida que os indivíduos procuram os sistemas religiosos no jogo de trocas simbólicas. Quando o Padre Cícero, por exemplo, afirmava que se quisessem ver um “milagre” em Juazeiro cada devoto plantasse uma árvore era nesse sentido de criar uma consciência ecológica no ecossistema. Nesse sentido, é que Santos (2024) coloca a perspectiva ecológica propondo uma conexão entre problemas ambientais e a ética do cuidado humano.

            O autor igualmente menciona a Encíclica Laudato Sí do Papa Francisco como exemplo da existência de um amplo debate eivado de tensões, futuro climático e protestos nesse campo teórico. A diferença entre São Francisco de Assis e Papa Francisco se dá muito mais no campo teológico do que propriamente na ecologia. Seu entendimento perpassa os afetos, fala de uma ecologia do corpo, da sexualidade, uma ecologia do meio ambiente, mas sobretudo uma ecologia do outro, do diferente. Enquanto São Francisco sustentava uma ecologia cósmica, Papa Francisco incorporava os rituais da natureza à Paccha Mamma no Vaticano. O frade, subvertendo a ordem que via Deus em tudo: na água, nas montanhas, na pedra, árvores, cristianiza o Paganismo ao reconhecer um Criador da natureza. Papa Francisco em seu papel de liderança religiosa procurava legitimar o cuidado, uma ética da ecologização no combate ao desmatamento, poluição dos rios, queimadas em sintonias com os relatórios sobre o problema climático no mundo e as implicações que um novo ethos pode acarretar na vida das pessoas e no meio ambiente.

 

            Esse novo ethos, segundo Boff (2025), pode ser encontrado no arquétipo de alteridade que São Francisco representa. Apartir dos conceitos de anima e de animus o ser humano constrói sua identidade em relação ao mundo e ao relacionamento com os outros e com o cosmos. Para o autor esses conceitos estão conectados com a dimensão da racionalidade responsável, isto é, as pessoas podem abdicar de suas subjetividades e interesses próprios para alcançar um projeto mais amplo e objetivo. O caminho proposto é altruísta e requer a participação consciente em todas as esferas inclusive a religiosa. Desse modo, a criação de um ethos ecológico, de uma escatologia da natureza só pode ser realizável observando aqueles que romperam com a ordem eclesiástica ou com o eclesiocentrismo como o fizeram Jesus, Gandhi, Dom Élder Câmara, João XXIII. Segundo o autor, há uma crise dentro e fora da Igreja, mas há, igualmente, propostas de restauração em que o homem passa a se sentir parte do todo e não fora dele (BOFF, 2025).

            Há um apelo ao Cristianismo (talvez por sua dimensão quantitativa e influência política) em Boff, mas de um Cristianismo libertador capaz de superar o falso moralismo, o farisaísmo. Um Cristianismo muito mais intuitivo e menos institucional, pois o autor recorda que esse tipo de Cristianismo não existe mais nos dias atuais, solapado pelo clericalismo e pelo poder econômico devemos concordar com o filósofo Nietzsche, segundo o qual o último cristão morreu na cruz.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

BOFF, Leonardo. A ecologia exterior e a ecologia interior. Francisco, uma síntese feliz. Disponível em A ecologia exterior e a ecologia interior. Francisco, uma síntese feliz. Entrevista especial com Leonardo Boff - Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Acesso em 19 de Jun. de 2025.

 

 

SANTOS, William. S. Reconfigurações do Ecossistema Religioso diante da crise climática global. [CADERNOS DO OIMC nº 11/2024]. Disponível em 19 de Jun. de 2025.

 

 

 

 

 

 

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