Religião e Ecologia
É possível
hoje apontar o engajamento de diversas denominações em prol da espiritualidade
religiosa. De diversas maneiras essas religiões cooperam por meio de ações
virtuosas como o amor, a compaixão, a cordialidade e a convivência pacífica. As
religiões por meio de sua capacidade de mobilizar e conscientizar massas
promovem a paz e o diálogo por justiça, amor ao semelhante e suspensão das
guerras. O apelo das religiões redundam por um mundo menos militarizado e mais
humano. Há um esforço por parte dessas instituições religiosas para criar
estratégias pacificadoras em acordo com sua mensagem religiosa (tradição oral
ou escrita).
O
engajamento das religiões com a causa da sustentabilidade tem como ponto de
convergência a ideia de que a vida precisa ser preservada. Segundo Boff (2004),
o cuidado com toda forma de vida é inerente ao homem, pois o acompanha desde o
nascimento. O autor nos ensina que o cuidado não é individual, uma atitude
singular, mas engajado com o coletivo. Através do cuidado a natureza passa a
não ser vista como objeto de consumo, mas como sujeito de valor, símbolo de
escuta (porque a natureza fala e precisamos ouvir sua mensagem). Segundo
Boff(2004), nessa perspectiva do cuidado não existe relação de domínio humano
sobre a natureza, mas de cumplicidade e familiaridade, convivência. É preciso
olhar para o meio ambiente e a proposta da sustentabilidade a partir de dentro,
respeitar seu movimento cíclico e repouso, respeitar seu tempo, no dizer de
Boff, ter espírit de finesse (espírito de fineza), permitir que o amor
pela natureza tenha centralidade e não apenas o logos. Nesse espírito de fineza
com a natureza o Budismo de Sidarta Gautama, o Buda, ou o Cristianismo de Jesus
Cristo e o Hinduísmo de Gandhi e ainda a filosofia chinesa do Feng-Shui, são
exemplos fecundos de convivência pacífica com o próximo e com a natureza.
Para a
maioria das religiões Ocidentais e Orientais o planeta é uma dádiva divina e
esse dom recebido deve ser cuidado em retribuição ao usufruto de todos os
benefícios que a natureza oferece para a vida humana e animal. Numa perspectiva
das Religiões da natureza ou do mundo natural, a Criação é vista como obra
divina carecendo de ser cuidada em todos aspectos. Na parte oriental o Budismo,
Hinduísmo e a religiosidade indígena. Na maioria dessas culturas persiste a
crença de que a natureza é povoada de seres espirituais ou é ela mesma uma
manifestação transcendental. Nesse sentido, o planeta e os seres que o habitam
possuem uma relação de totalidade na qual cada organismo vivo é parte de um
sistema ecológico (GAARDER, 2000). Essa relação orgânica do mundo, segundo o
autor, nos permite pensar os problemas ambientais sob o olhar de uma
espiritualidade ecológica ao valorizar a natureza como parte de nossas crenças
religiosas. Nos permite ainda criar um estilo de vida e de consumo sem destruir
nosso habitat mesmo que para isso seja preciso a quebra do paradigma atual que
se pauta exclusivamente pelo interesse econômico das grandes potências
europeias.
Segundo
Santos (2024), a religião tem o poder de fundamentar um dever ou papel social
aos seus seguidores ao conferir uma ética do cuidado, uma ecojustiça com o meio
ambiente. Isso é particularmente verdadeiro, pois a esfera religiosa confere
significado e sentido à vida das pessoas na medida que os indivíduos procuram
os sistemas religiosos no jogo de trocas simbólicas. O médium Chico Xavier, por
exemplo, afirmava que se cada devoto plantasse uma árvore haveria um “milagre”
no ecossistema. Nesse sentido é que Santos (2024) coloca a perspectiva
ecológica propondo uma conexão entre problemas ambientais e a ética do cuidado
humano.
Quando Hans Küng (1993), apresentava na década de 1990 em uma publicação de seu livro Projeto de ética mundial um quadro de preocupações sobre questões ecológicas da natureza, a obra já sinalizava que a situação de sobrevivência no planeta não era boa e quiçá fosse reversível para o bem da humanidade. Segundo o autor, antes dos atuais financiamentos às guerras da Ucrânia x Rússia, os conflitos armados no Oriente Médio como Israel x Irã, todos os países alimentavam um fundo equivalente a 1 milhão e 800 mil dólares para o armamento bélico enquanto que 1500 crianças morriam por hora por causa da fome. Outro dado alarmante do relatório era que a cada ano uma parte da floresta tropical era devastada para sempre e a cada dia uma espécie vegetal ou animal desaparecia para sempre comprometendo o ecossistema. Diante desse quadro apocalíptico para nossa existência fez-se urgente uma consciência por mudanças profundas no trato com a terra e seus recursos. Nunca antes houve uma necessidade de criar uma ética mundial em prol da vida como atualmente. A crise atravessa as fronteiras do local e regional e atingia a todos mundialmente: poluição, aquecimento, queimadas, enchentes, terremotos, tsunamis e uma gama de desequilíbrio que aponta o homem como o principal agente causador dessa intempérie.
REFERÊNCIAS
BOFF,
Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra.
Petrópolis: Vozes, 2004.
GAARDER,
Jostein. O livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras,
2000.
KÜNG,
H. Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência
humana. São Paulo: Paulinas, 1993. [Coleção Teologia hoje].
SANTOS,
William. S. Reconfigurações do Ecossistema Religioso diante da crise
climática global. [CADERNOS DO OIMC nº 11/2024]. Disponível em 19 de Jun.
de 2025.
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