Resenha da aula sobre Ateísmo e Religiões

 


            O professor Hugo Brandão inicia sua fala alertando que o debate sobre ateísmo não é algo simples, mas que se trata de um tema profundo e de grande complexidade. Então, qualquer tentativa de abordar a temática de forma concisa estará ciente que um recorte deixará de fora muitas junções que envolvem o pensamento ateu até os dias de hoje. O autor faz uma abordagem multifacetada do ateísmo que vai desde o sentido etimológico do termo até seus desdobramentos com outras perspectivas como o agnosticismo, os sem religião e o ceticismo. Explora de maneira contundente a relação entre ateísmo e moralidade e a refutação de argumentações teístas. A existência de provas da não-existència de Deus, alegação de que é uma religião disfarçada, outras argumentações referem-se ao fato de que por não acreditarem em uma divindade são pessoas infelizes. Essas e outras alegações teístas são elucidadas à luz do próprio ateísmo. Por fim, o autor traz as contribuições dos mestres das suspeitas e do evolucionismo e de como essas abordagens contribuíram para o pensamento ateísta.

a)         Logo no início de sua exposição, Brandão conceitua o significado etimológico da palavra ateísmo. Conceituar é importante para a compreensão do debate porque parte daquilo que a mente expressa ao trazer a ideia original em que foi criado. Explica que o termo ateísmo é de origem grega formado por “a” (prefixo de negação), mais “Teos” (radical grego que significa Deus/es) e “ismo” (sufixo usado para expressar o sentido de uma escola de pensamento, doutrina, teoria ou princípio). Embora o significado do termo ateísmo nos remeta ao indivíduo ou grupo de indivíduos que não acreditam em Deus(es), Brandão observa que mesmo os ateus, agnósticos e os que se declaram sem religião guardam alguma crença, no entanto o mais óbvio é que esses indivíduos estão, por assim dizer, desvinculados de instituições religiosas, em outras palavras, esses indivíduos não agremiam ou pertencem a alguma denominação religiosa. Esta é uma característica que, segundo o autor, vem crescendo no Brasil e no mundo.

            Brandão expõe as argumentações teóricas que esses grupos sustentam como, por exemplo, os agnósticos defendem que somos incapazes de conhecer Deus e seus desígnios, bem como não há como saber Nesse ponto de vista, o agnóstico é alguém que está “em cima do muro”, completa o professor: é indiferente. Como as fronteiras que separam o ateu do agnóstico e do cético são muito tênues, Brandão faz uma distinção entre cada um deles. Assim, pois, Brandão pontua que se deve tomar cuidado para não achar que o ateísmo é um monobloco onde todos aqueles que se identificam como tal pensassem o mesmo a respeito da religião. O professor faz a seguinte diferenciação: é preciso distinguir o ateísmo implícito (ou fraco) que pode ser subdividido em natural e prático. No natural, conforme a aula do professor Brandão, as pessoas nunca tiveram contato com a ideia de Deus, como por exemplo, um bebê que nasce numa tribo isolada da civilização. Já no ateísmo prático os indivíduos conhecem as religiões, são socializadas numa cultura, mas resistem, ou não aceitam, isto é, rejeitam conscientemente a crença na existência de divindades. Esse tipo de ateísmo explícito, segundo Brandão, se expressa com bases filosóficas e científicas.[1] Nessa forma que assume o ateísmo explícito o autor o classifica em a) cético (ou negativo) é quando se assume uma postura de não aceitar “verdades” sem justificativas, sem evidências empíricas; b) já o ateísmo crítico ou positivo defende a impossibilidade lógica da existência de Deus, argumentando que é contraditório sua existência como se apresenta.

            No tocante ao tema do ateísmo e a moralidade, Brandão argumenta que é um equívoco imaginar que ateus não possuem valores ou princípios. O fato do ateísmo não ser um sistema moral, um código de ética isso não significa que não possua uma moralidade. Desse modo, o autor vai desconstruindo pressupostos sobre a falta de moralidade daqueles que se dizem ateus e apresenta as refutações daquilo que se reproduz. Além desta o autor apresenta outras construções preconceituosas sobre o ateísmo como: a) o argumento de que os ateus não podem provar que Deus não existe; b) o ateísmo é uma crença como qualquer outra; c) ateus são infelizes ou revoltados; d) o ateísmo é inútil porque não dá sentido a vida. Ao refutar essas proposições teóricas o autor coloca a importância do ateísmo e sua contribuição para um entendimento mais amplo acerca do fenômeno religioso. Além do mais o ateísmo pode ser percebido como forma híbrida de religiosidade e secularismo na modernidade.

            Desde seu surgimento o ateísmo atinge o apogeu durante o século XIX e início do século XX com os mestres das suspeitas: Nietzsche, Darwin, Marx e Freud. Além desses autores, as descobertas científicas e o Evolucionismo também contribuiu para ressignificar a religião e questionar o modelo ocidental e seu teocentrismo. Brandão afirma que Nietzsche partindo de uma constatação de uma sociedade que não se importa mais com os mitos e com a crescente secularização denunciou como o ocidente matou Deus ao substituir os dogmas religiosos pela ciência e declara: Deus está morto. Com Marx a religião passa a ser vista como opiato do povo, uma instituição que pertence a superestrutura da sociedade funcionando como uma reguladora de conflitos entre dominantes e dominados. Com Feuerbach a religião seria produto do homem invertendo a lógica de uma criação sobrenatural como defendem os entusiastas das Teogonias e Cosmogonias religiosas. Através de Freud a religião também passa a ser compreendida como neurose ou ilusio pondo em xeque o conflito entre natureza e cultura.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            Se ser ateu é uma condição desvinculado da natureza humana, algumas questões precisam ser esclarecidas no sentido daquilo que foi transmitido pela cultura ocidental a fim de ampliar o debate sobre a afirmação de que todos os povos possuem traços de religiosidade. A esse despeito o historiador grego Heródoto escreveu que pode-se encontrar povos sem uma língua, sem um exército, sem moeda, mas não se encontra povo sem religião (MORAES, 2005).

            Outro ponto nevrálgico é que se a crença religiosa é inata ao ser humano, está na índole dos indivíduos, isto é, desde tenra idade há uma propensão humana a acreditar em um mundo exterior ao que se apresenta. Um mundo rodeado de fadas, gnomos, duendes, anjos, demônios, deuses, lugares fabulosos como o Céu, Inferno, Purgatório e símiles. A ideia forjada por Mircea Eliáde da existência de um homo religiosus seria, segundo hipótese materialista, quimérica? Elíade defende que essa é uma característica universal, não estando circunscrita apenas aos indivíduos de sociedades tradicionais, menos ainda exclusividade dos que se declaram religiosos. Para Eliáde o Cosmos dessacralizados, secularização são radiações do homo religiosus. (ELIÁDE, 1992) Aqui um ponto de disputas: a dimensão religiosa seria fruto da imaginação e do pensamento utópico? Brandão responde que no ateísmo o que existe é a ausência de crença na existência de divindades. Em outras palavras, para o ateu não há um Deus e menos ainda diversos deuses. É razoável pensar que o movimento ateísta busca sintetizar toda a história das religiões numa conclusão pessoal que não considera as hierofanias do sagrado no mundo e nem os fenômenos inexplicáveis pela racionalidade humana.

            Há autores que pensam essas dinâmicas como alternativas seculares de substituição ao papel que a religião exerce na sociedade. Esses autores defendem que apesar de não ser estritamente religiosas, pois não creem em uma ou várias divindades negam o sobrenatural, não desenvolvem cultos litúrgicos, são chamadas de seculares. Por outro lado, por tentarem ser uma visão de mundo uniforme e de grande abrangência em curso para explicar às pessoas a “verdade”, o “por quê” da existência humana e ainda por acreditarem em algo constituindo, desse modo, em uma crença, e por extensão não possuindo livro sagrado, mas recorrem ao conhecimento científico, lógico, experiencial contidos nos livros dessacralizados coo suas escrituras, exaltam seus líderes “religiosos da ciência” tudo isso os tornam grupos coesos que procuram explicar o Cosmos à luz de uma verdade, podem ser tipificadas como religiões seculares (MCDOWELL; STEWART, 1992).

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 BARRET, Justin. Por que alguém acreditaria em Deus? São Paulo: Martins Fontes, 2007.


MCDOWELL, Josh; STEWART, Don. Entendendo as Religiões Seculares: Um manual das religiões de hoje. São Paulo: Candeia, 1982.

 

MORAES, Armando. Valores humanos: ensino fundamental. [s. l.]: Construir, 2005.

 

ELIÁDE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.



NOTAS

[1]     O estudo de caso de Justin Barret em que é negada a uma criança (filha de pais ateus) interferências culturais sobre crenças religiosas a fim de saber se a criança desenvolveria por si mesma essa noção de divindade é crucial para esse debate. A experiência demonstrou que mesmo oriundo de família ateia, reprimido da cultura e interferências de fora, a criança desenvolveu crença religiosa espontânea, inclusive passou a crer em um Deus supremo ao atingir os 5 anos de vida. Cf. BARRET, Justin. Por que alguém acreditaria em Deus? São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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