RESENHA Religião e substâncias químicas

 

  Os autores fazem uma descrição da utilização ritual de substâncias psicoativas em cerimônias religiosas. Afirmam que essa prática é antiquíssima e experienciado por diferentes sociedades. O objetivo do uso dessas substâncias químicas, segundo os autores, foi estritamente religioso, isto é, esteve ligado a busca por estados alterados da consciência na busca de uma experiência com o divino transcendendo a esfera imanente para alcançar o transcendente. Essa busca de uma conexão com o mundo espiritual foi inicialmente utilizada em rituais sagrados em tempos imemoriais. Seja através do uso de plantas psicoativas em ritos ancestrais, o uso de vinho no rito eucarístico ou no manejo de alucinógenos como a ayahuasca, têm-se que o uso de substâncias químicas está ligado desde a origem à busca pelo sagrado.[1]

      Depois de historicizar quão antiga e diversificada é a prática de alucinógenos em diversos ambientes religiosos, os autores problematizam a existência de um estigma em relação aos praticantes do Santo Daime e a União do vegetal no uso que fazem da ayahuasca. A ayahuasca era conhecida pelos astecas em rituais xamânicos para se conectar com o Transcendente e sua utilização facilita a experiência com o mundo sobrenatural. No entanto, os autores salientam que o uso ritual divide opiniões, pois enquanto para uns o uso religioso é visto como positivo, para outros essa maneira é vista como artificial, perigosa e antiética. Há quem busque uma aproximação fora de propósitos espirituais ou porque está na moda usar o chá ou como forma de rebeldia ou curiosidade, enfim, o fato da ayahuasca sair da floresta para a cidade já confere a seu uso outra configuração despropositada das práticas xamânicas.

       No Xamanismo seu uso era exclusivamente no sentido de ter uma experiência com o divino, curar uma doença. Nas práticas religiosas hinduístas o livro sagrado Vedas encorajava a utilização da bebida sagrada Soma. Já o Cristianismo católico manipula o vinho em suas celebrações litúrgicas ficando provado que o uso de substâncias químicas pelas religiões não é nenhuma novidade. Os autores garantem que a relação química e religião é tão antiga quanto a própria humanidade. Os autores defendem que o boom de novos movimentos religiosos que surgem no século XX favoreceu a um maior acesso e interesse pelo Oriente e suas práticas religiosas destacando a individuação e o autoconhecimento.

      Numa linguagem acessível e de fácil compreensão os autores destacam como a indústria percebendo o papel curativo das plantas toma para si o papel que antes era exclusivamente religioso. É inegável como houve uma guinada na exploração pela indústria das plantas e chás usados nos rituais religiosos, no dizer dos autores houve uma engenharia holística, rumo a descoberta das propriedades medicinais das plantas. Afirmam que a aura mística das curas nos rituais religiosos estavam nas propriedades químicas das plantas – aqui a religião vai perdendo espaço de prestígio e influência que exercia sobre as pessoas na cura de doenças (é digno de nota que os xamãs e pajés exerciam funções de médicos em seus contextos sociais pelo conhecimento que tinham sobre as plantas e esse valor social de que gozavam esses curandeiros conferiam-lhe uma posição de destaque em relação aos demais). A indústria isolou substâncias como limoneno, mentol e as utilizou na indústria de limpeza, a descoberta de flavonoides levou a produção de produtos contra radiação solar e antioxidantes. Os alcalóides foram empregados na fabricação de venenos e alucinógenos, já os alcaloides utilizados no tratamento do sistema nervoso central.

      Os autores destacam em especial o uso ritual da ayahuasca pelo Santo Daime por ser, segundo eles, o caso mais conhecido no país e, portanto, descrevem como é preparada a bebida. Fazem um esclarecimento do significado etimológico da planta e sua elaboração com o cipó, explica brevemente sobre os métodos de preparo da ayahuasca bem como seus efeitos nocivos para alguns indivíduos. Em seguida problematiza como essa expressão religiosa se relaciona com a lei e demais instituições religiosas no país: o artigo denuncia a intolerância existente por parte de neopentecostais ao condenar o uso de substâncias psicoativas. Amplia essa discussão em relação do Santo Daime com as leis brasileiras, apesar da Constituição garantir o direito de culto as religiões estabelecidas. A questão é ainda mais controversa quando se amplia o debate sobre o uso recreativo da maconha e cocaína associada às práticas religiosas do Candomblé e Umbanda. Como se pode ver a questão não é simples e os debates de modo geral redundam em preconceitos e compreensões equivocadas do problema que os autores tentam desmistificar por meio do resgate histórico e imparcial. Os autores colocam a visão dessas manifestações religiosas como o Santo Daime, a Zide Door Church e a Divine Assembly que tem nas plantas um sacramento natural frente a discussão sobre a legalidade e rejeição por parte de outras religiões.

NOTA

[1]     Um estudo realizado na Universidade Wesleyan, nos EUA, pelo geólogo Jelle de Boer, afirma que o templo grego de Apolo (séc. VII a.C.) ficava entre duas fendas no solo onde exalavam gases como o etileno, etano, metano. O etileno (um anestésico usado em cirurgias) combinado com os outros gases deixavam a sacerdotisa do templo doidona e proferia oráculos chapada. Os cidadãos das cidades-estados gregas também ficavam alegres. Cf. CORRADINI, Ana P. Sacerdote chapado: eram os deuses narcóticos? Disponível em https://super.abril.com.br/cultura/eram-os-deuses-narcoticos. Acesso em 10 de Fev. de 2025

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