Resenha [ STERN, Fábio L. Metodologia em Ciência da Religião. . Estatuto epistemológico da Ciência da Religião – Revista Relegens Thréskeia, 2020, V. 09, n. 1, p. 138-160]

 

    No artigo, o autor procura demonstrar os debates sobre as metodologias em Ciência da Religião no Brasil e suas interferências para a pesquisa desde sua emancipação da Teologia. Reconhece que há uma conduta de desvalorização da história institucional e de métodos utilizados na área da Ciência da Religião por parte de pesquisadores. Entre os desafios comumente encontrados está o fato da Teologia ter funcionado como subcomissão dos cursos de Filosofia. Outro desafio em consequência do primeiro está o fato de cientistas da religião e teólogos competirem por bolsas de pesquisas oferecidas pela CAPES. Alguns cursos PPGs mantêm uma visão religiosa conservadora e reagiam contra a autonomia da disciplina. Outro problema enfrentado diz respeito ao debate da formação de docente em Ciência da Religião, sendo que muitos deles eram teólogos por formação. Já as universidades confessionais tementes do caráter não confessional da Ciência da Religião assumiram dupla postura: de cooptação ou de resistência. Na contramão das universidades confessionais as universidades públicas viam na Ciência da Religião uma inclinação para a Teologia ou como uma pseudociência.

    Consideradas essas questões em seus contextos, o autor abre a discussão sobre o fato de que muitos historiadores reclamam para si o termo história das religiões, mais que isso, queixam-se de que a primazia de estudos sobre religiões não pertencem aos cientistas da religião, mas aos historiadores da religião desde o final do século XIX. Stern (2020) afirma que a análise de pesquisas desse período está conectada muito mais com a Ciência da Religião do que com a historiografia. Quanto ao termo história das religiões traduzido por Eliade, o escritor assumiu te sido um erro de tradução do termo original em alemão Religionswissenschaft que literalmente se traduz como Ciência da Religião. Stern (2020), esclarece ainda que o trabalho de Eliade está alinhada com a perspectiva dada por Joaquim Wach ao dividir a Ciência da Religião em suas metodologias principais: os estudos sistemáticos das religiões (estudo comparado das religiões) e o estudo histórico das religiões (história das religiões). No caso brasileiro, o autor enfatiza que esse segundo caso é tido como referência aos estudos empíricos. Além do que, Eliade foi ferrenho crítico do historicismo o que o aproxima da Ciência da Religião numa abordagem transcultural.

      Paralelo ao debate sobre os problemas metodológicos, Stern (2020) trata das tensões existentes entre os séculos XIX e XX, sobretudo do surgimento da Ciência da Religião oriundo do choque cultural entre a colonização europeia e os povos colonizados. É desse encontro que surgem os primeiros trabalhos em respostas à expansão colonialista e transplantação cultural. Os trabalhos desse período focalizavam as religiões asiáticas e a tradução de textos sagrados. Nessa fase inicial a disciplina recebeu vários nomes e só depois veio chamar-se de Ciência da Religião.

     Outras ciências passaram então a reivindicar para si o estudo sobre as religiões e cobrarem dos cientistas religiosos a utilização de método próprio. Diante do dilema, Stern (2020) pontua que o caminho encontrado foi o desenvolvimento da fenomenologia de Wach como paradigma dominante nos Estados Unidos e na América Latina. A ideia de que as religiões descendiam do mesmo núcleo comum, possuíam um significado e método único: o sagrado – serviu de justificativa por mais de 50 anos contribuindo para abertura de cursos em universidades de todo o mundo. Com isso, o autor afirma que houve uma orientação no sentido de legar os estudos que versassem sobre as religiões somente aos cientistas da religião. - algo que será contestado comente após a morte de Eliade. Entre as críticas à fenomenologia está a acusação de que sua abordagem é colonialista tendo como ideal de religião o protestantismo alemão e a sua essência teológica.

     Segundo o autor, a cobrança por um método próprio, feita à Ciência da Religião, é injusta porque fundamenta o autor que outras disciplinas tomaram empréstimos metodológicos de outras disciplinas sem que isso representasse um problema. Como muitos profissionais se interessam pelo estudo das religiões como se fossem seu objeto exclusivo, Stern (2020) afirma que por essa razão a cobrança é convalidada por tensões entre as disciplinas. Na discussão sobre a atitude metodológica que os cientistas da religião devem ter em relação ao seu objeto de estudo, o autor conclama para a distinção entre discurso êmico e discurso ético. Sugere que a perspectiva mais segura para a pesquisa é adotar a perspectiva ética, pois é a principal ferramenta teórica garantidora de legitimidade científica e a desejada objetividade na pesquisa. A perspectiva ética possibilita a priori que o pesquisador mantenha o distanciamento de seu objeto, pois se aproxima dos estudos comparativos. Nesse sentido, a narrativa ética é aquela descrita pelos pesquisadores enquanto a perspectiva êmica configura o olhar dos religiosos. Nesse contexto, a perspectiva teológica foi classificada como metodologia êmica diferentemente da Ciência da Religião. Essa postura encoraja análises para além do discurso dos fiéis o que impede cair no discurso êmico. Na descrição do discurso ético na pesquisa, há melhor apreensão das metodologias e teorias empregadas. Diferentemente do discurso ético, o discurso êmico não é empregado como objeto de estudo. Segundo Stern (2020) a pesquisa deve transcender o discurso dos fiéis por estar carregado de imparcialidade.

     A questão apontada por muitas áreas segundo a qual o cientista da religião não pode acessar seu objeto de estudo porque ele está fora do mundo empírico, Stern (2020) responde que por meio do agnosticismo metodológico é possível fazer análises e interpretações sobre as religiões e seus fenômenos. Para o autor o agnosticismo metodológico constitui a fronteira entre a Teologia e a Ciência da Religião.

    O autor esclarece que o agnosticismo metodológico não é ateísmo e nem agnosticismo, mas uma postura de trabalho que suspende a priori, a validade dos argumentos êmicos tornando a pesquisa realizável por meio de ferramentas analíticas. Essa postura é justificável porque está for da alçada da Ciência da Religião validar ou invalidar os fenômenos metaempíricos do discurso êmico, menos ainda dar a palavra final ao discurso êmico. Considera ainda que o método agnóstico não interfere no resultado final da pesquisa. Nesse sentido, os cientistas da religião se limitam a dar conta dos aspectos históricos e materiais das religiões.

     No tópico sobre a tensão entre os fiéis o autor chama atenção para os desdobramentos que a pesquisa evoca. Segundo ele, o método agnóstico e a perspectiva ética utilizada pelo pesquisador levam as seguintes consequências: as narrativas dos fiéis não são reproduzidas ao pé da letra e o resultado da pesquisa geralmente não são compreendidas. Como as pesquisas possuem características plurimetodológicas o autor considera que esses trabalhos se dividem em duas etapas principais: a fase investigativa (heurística) e a fase analítica (análise do discurso êmico). E para uma pesquisa ser considerada da área da Ciência da Religião precisa contemplar a distinção entre discurso êmico e discurso ético; o método agnóstico e o fator de tensão ente os fiéis. É dessa abordagem que, segundo o autor, se constitui o paradigma da pesquisa em Ciência da Religião.

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