" Mulher sem religião é capaz de tudo": Uma reflexão sobre os femininos e aumento dos sem religião no Brasil, a partir de S. Bernardo de Graciliano Ramos[1]e do Censo do IBGE 2010 e 2022.

 



Francisco de Assis Pereira de Araújo

                                                                                                    Myrian Gomes da Silva

 

Resumo

A pesquisa tem como objetivo fazer uma análise qualitativa do crescente número de pessoas que se declaram sem religião nos censos demográficos. A metodologia de pesquisa é de natureza documental e estatística tomando como base o resultado quantitativo do Censo Demográfico do IBGE 2010 e 2022, a divulgação de projeção para o ano de 2026 pelo centro de estudos Pew Research Center (PRC) e a observação dos elementos que caracterizam a formação do feminino incorporado na personagem Madalena do romance S. Bernardo. Entre os resultados esperados estão a conexão entre as pessoas que se declaram sem religião e seu alinhamento com processos de secularização em curso na sociedade. Assim como a personagem Madalena, indivíduos que não se encaixam nos moldes dos sistemas religiosos tendem a desfilar-se de instituições religiosas tradicionais. A pesquisa conclui existir incompatibilidade de ideias e visão de mundo entre o que apregoam as religiões tradicionais como o Cristianismo. O contraste aumenta com o aumento da secularização da sociedade.

Palavras-chave: Madalena; Sem religião; São Bernardo; Censo; IBGE

 

 

 


 

Introdução

Essa pesquisa analisa o crescimento do seguimento sem religião no Brasil. O país desde sua colonização, recebeu influência preponderante do catolicismo romano. Paralelo à universalização do catolicismo concorreram diversas práticas religiosas e indivíduos que não se identificavam com nenhuma alternativa e por isso são chamados de sem religião. A relevância desse trabalho para a sociedade está no combate ao fundamentalismo religioso ao preconceituar indivíduos que não estão vinculados às instituições religiosas como se o não pertencimento significasse que essas pessoas são irrreligiosas, isto é, a ausência de vínculo institucional estaria ligada ao caráter menos moral e ético destes indivíduos.

Em 2010 o número de mulheres que se identificaram como sem religião foi de 43,8% (IBGE, 2010). Já no censo do IBGE (2022) o percentual de mulheres representa 44,5 % contra 56,2% dos homens. Embora a maioria dos sem religião seja formada por homens, houve um acréscimo de 0,7 % entre as mulheres. No que diz respeito a população total de pessoas declaradamente sem religião no país estima-se que o aumento foi de 9,3% em relação ao censo de 2010, totalizando em 2022 o montante de 16,4 milhões de pessoas.

Um dos registros mais antigos de brasileiros que se identificam como sem religião está na obra de Graciliano Ramos intitulada S. Bernardo[4]. O contexto da época era de profundas mudanças na sociedade no início do século XX, mudanças na educação, ascensão do movimento feminista por mais direitos civis e contestação ao catolicismo. O modelo de identidade nacional ladrilhado no século XX era de uma elite branca, cristã católica, que tinha condições de estudar e era subsidiada pelo Estado. Essa hegemonia foi contestada pelo Movimento Modernista de 1920 que optava pela inclusão ou imbricamento de diferentes culturas oriundas da interpenetração cultural. Esse movimento rompia com o pensamento vigente e passava a valorizar três fontes originárias do povo brasileiro como, por exemplo, além da herança europeia, foram incluídas a herança africana e a ameríndia[5]. Foi graças a essa inclusão que muitos outros elementos culturais passaram a pertencer ao substrato cultural.

Autores clássicos como, por exemplo, Comte (2008), desenvolveu uma teoria sobre a evolução das mentalidades no modo de ser e de agir das pessoas, sobretudo em sociedades influenciadas por Tradições religiosas. Assim, com o surgimento dos ideias do positivismo de Augusto Comte, que previa o fim da religião através da evolução da sociedade, se imaginou que o índice estatístico dos sem religião aumentaria assustadoramente ao sair de uma perspectiva das crenças para uma perspectiva científica e racionalista.

Esse processo de reengenharia social se desdobra com os avanços da secularização e da racionalização, implicando transformações profundas na sociedade. Entre essas mudanças, destaca-se o que Weber chama de desencantamento do mundo na obra Ciência como Vocação caracterizado pela substituição das explicações mágico-religiosas por interpretações técnico-científicas. Como consequência, cresce de maneira expressiva o número de pessoas que se identificam como sem religião, uma vez que a religião perde parte de sua função de produtora de significado, tendo que concorrer com explicações mais materialistas e sendo progressivamente reocupada pela ciência como referência central de compreensão da realidade.

Como se vê, o objetivo geral desta discussão foi analisar o crescimento dos sem religião no Brasil através do processo de secularização e racionalização da sociedade, trazendo para tanto as estatísticas comparativas do IBGE (2010 e 2022) e os dados do Pew Research Center (2026). Esses dados ajudam a compreender as características desse grupo social, levando em conta o que esses censos quantitativos não apresentam. Com essa finalidade, se fez uso da obra S. Bernardo, de Graciliano Ramos, como recurso interpretativo, a fim de entender o que leva a personagem Madalena a ser identificada como sem religião.

Como objetivos específicos preocupou-se em examinar os censos do IBGE (2010 e 2022) e as projeções do Pew Research Center (2026) a fim de identificar tendências histórico-sociais e projeções futuras do crescimento dos sem religião no Brasil. O segundo objetivo procura analisar a obra S. Bernardo como recurso literário que dialoga com questões da contemporaneidade, especialmente no que se refere às diferentes formas de religiosidade e as tensões entre a hegemonia católica e outras expressões religiosas diante dos processos de secularização da sociedade.

            O terceiro objetivo visa interpretar a personagem Madalena como representação simbólica dos sujeitos que se identificam como sem religião nos censos. Na obra, a personagem apresenta pensamento crítico e resistência ao catolicismo dominante, bem como um envolvimento superficial, isto é, se utiliza dela quando lhe convém, mas sem vínculo. Essa atitude reflete parte de um aspecto da realidade atual em que grande número de católicos não se identificam mais com a instituição e essa constatação é evidenciado nos últimos censos demográficos com a perda crescente no número de fiéis.

            A justificativa metodológica desta pesquisa, como já anteriormente mencionada, fundamenta-se na análise combinatória entre as métricas de dados oficiais, as projeções internacionais e a análise do romance São Bernardo. A escolha por esse modelo metodológico permitiu compreender a reconfiguração do novo cenário religioso que se desenha ultrapassando as barreiras da observação direta para a observação participante. Com o método qualitativo foi possível interpretar o contexto social, as rupturas com o poder estabelecido e as continuidades históricas possibilitando, dessa maneira, ampla análise sobre os dados do IBGE (2010 e 2022) e , as previsões do Pew Research Center (2026), integrando a obra literária de São Bernardo como recurso interpretativo. O método de análise qualitativa revelou que o aumento dos sem religião no Brasil é um fenômeno complexo possuindo diferentes nuances além do quantitativo.

O sem religião e o processo de secularização

            O crescimento dos sem religião no Brasil constitui um processo de secularização que desafia a hegemonia das tradições religiosas abrindo espaço para novas formas de identidade. A literatura brasileira, em especial S. Bernardo[6] de Graciliano Ramos, oferece elementos para compreender esse processo disruptivo. A personagem Madalena, professora formada na Escola Normal, encarna uma religiosidade crítica e uma postura feminista que tensiona os modelos tradicionais de gênero e fé. Como observa o romance, quando Paulo Honório chama Madalena de “mulher sem religião”, ele o faz porque julga encontrar na esposa vestígios que aludem à ausência da religião dominante (RAMOS, 2012, p.155). A fala de Honório ecoa uma preocupação com a ausência de vínculo religioso-institucional podendo ser sentida como uma ameaça ao establishment da época. Essa condição na obra antecipou debates que atualmente constituem objetos de estudo sobre as novas configurações sociais. Considerando que atualmente há uma preocupação com o fenômeno dos sem religião, a leitura da obra que é de 1934, torna-se ainda mais significativa, visto que o contexto atual é de múltiplas Madalenas – símbolo de novas maneiras de ser e de agir sobre a religiosidade confrontando as instituições tradicionais.

            Para algumas pessoas a secularização da sociedade é uma alternativa segura aos que caminham libertos do pensamento religioso, nesse caso passa a existir uma tensão entre religião e secularização e a partir desse tencionamento a religião poderia em algum momento ser substituída por trilhas mais racionalistas. Com essa transformação é inaugurado um processo de intelectualização em que não seria mais necessário recorrer à magia para se obter favores espirituais (BAPTISTA; PASSOS; SILVA, 2008). Segundo os autores, há indicadores que revelam essa ruptura, por exemplo, a existência de leis que garantem o divórcio contra dogmas de insolubilidade do casamento. A secularização oferece há todas as pessoas soluções terrenas para seus problemas. Essa característica, observam os autores, seduzem muitos indivíduos ou grupos de pessoas que veem nas normas religiosas uma rigidez irracional que contribuem para o distanciamento de práticas religiosas tradicionais. “ Secularização é a presença do racional, do utilitário e da terrenalidade, no campo da economia, da política e dos costumes. A secularização se distancia, na vida social do sagrado. ” (BAPTISTA; PASSOS; SILVA, 2008, p. 128).

            Além disso, segundo Berger (1985), o conceito de secularização empregado por setores anticlericais e progressistas é entendido como a libertação do homem do controle religioso. Para ele, esse movimento é um processo que vai paulatinamente desvencilhando o homem dos símbolos e instituições religiosas em que a separação entre Igreja e Estado confirma essa ruptura. Já para Casanova (1994), com a secularização a religião perde a importância de ser a única instituição determinante dos valores e normas e passa a conviver com uma pluralidade de instâncias promotoras de significados. Consequentemente, a maior oferta de bens simbólicos por outras instituições religiosas contribui para o refluxo de pessoas à outras denominações religiosas bem como identificar-se como sem religião. Nesse aspecto dos sem religião, o autor adverte que essa postura identitária não significa afirmar que os sem religião não possuam religiosidade, mas que a ritualização perde sua importância para a escolha individual dos indivíduos. A secularização não implica o fim da religião, mas a reconfiguração para o novo mercado religioso.

Madalena: de minoria insignificante aos expressivos resultados do IBGE e Pew Research Center

            Nos dias atuais, cada vez mais, o termo “nones” se populariza para se referir justamente às pessoas que não professam pertença institucional religiosa. Estão inclusos nesse segmento os ateus, os agnósticos e céticos. Esse grupo tem sido notado nos Estados Unidos desde a década de 1940 e de lá para cá tem estado em contínua ascensão tanto naquele país como aqui no Brasil. Esse é um fenômeno que não pode ser negligenciado, sobretudo numa nação majoritariamente evangélica como os Estados Unidos ou no caso brasileiro de hegemonia católica, ambos com grande rebanho de pertencimento cristão. Segundo Rodrigues Chaves (2025), o Brasil possui a quarta maior porcentagem na América Latina em número de indivíduos que se identificam como nones. O público que mais se identifica com o seguimento são, na maioria, jovens que não seguem nenhuma religião ou são desingrejados, negam a existência de uma ou mais divindades, duvidam de uma realidade sobrenatural estabelecida pelas instituições tradicionais. Ao invés disso, simpatizam-se com a ideia do sincretismo religioso, práticas livres de espiritualidades, relativismo e o pluralismo religioso sem, no entanto, centralizar uma única prática como a verdadeira (RODRIGUES CHAVES, 2025).

            Segundo Juliano (2023), os nones no Brasil são conhecidos como “sem religião” e sua presença é mais massiva em países desenvolvidos como Suécia, Dinamarca, França e Alemanha. Esse elemento constitui um fenômeno a ser investigado no Brasil, visto que esse grupo vem crescendo paulatinamente à medida que decresce o número de católicos no país. Para o autor, uma característica marcante dos nones no Brasil é a combinação de diversos elementos de fé por esse grupo. Para ele, se identificar como nones ou sem religião não significa que não possuem espiritualidade, mas sim, que não estão vinculados a nenhuma denominação como fiel ou seguidor institucional.

            O Censo de 2010 registra o aumento do seguimento sem religião com cerca de 15.3 milhões de brasileiros que se identificam fora das religiões tradicionais. O estado com maior número de pessoas que se identificam com o grupo é o Rio de Janeiro representando 16% dos entrevistados. Mas, há presença expressiva no Amazonas, Pará, Mato Grosso, Goiás e fronteira do Rio Grande do Sul com o Paraguai. Assim como Madalena, os Sem religião estão desencaixados dos laços institucionais, encontram-se em busca de uma nova identidade, pois muitos apresentam desvinculação de uma religião, personalizam suas crenças adicionando elementos de diferentes religiosidades, excluem ou reatualizam outras. O perfil do grupo, segundo o Censo de 2010 é de uma expressiva população jovem com média de 26 anos, vivem nas zonas urbanas, centralizados na região Sudeste do país. Apresentam histórico de vínculo institucional por diferentes religiões (característico do trânsito religioso), anseiam um novo modo de ser fora e à margem dos vínculos religiosos institucionais. (TEIXEIRA; MENEZES, 2010)

            Além disso, estimativas levantadas pelo Pew Research Center (PRC) para o ano de 2026 sobre os sem religião no Brasil, considera que “the religiously unaffiliated are projected to continue growing in Latin America” (tradução livre: projeta-se que os sem religião devem continuar crescendo na América Latina). Segundo as projeções feitas por esse órgão internacional os sem religião podem atingir 15% dos brasileiros em 2026. Essa estimativa confirma uma tendência que só vem crescendo desde o período imperial. Em 2010, o IBGE registrou 7,9% da população brasileira, já em 2022 esse número subiu para 9,3%. Os sem religião vão se tornando um grupo de contínua expressividade e seu crescimento ao longo dos séculos reconfigura o cenário religioso associado a fatores como a secularização da sociedade e diversidade religiosa. Além da presença majoritariamente masculina, esse grupo social se destaca pela grande presença de jovens, concentrando-se mais nas cidades do que em zonas rurais.

Pioneirismo de S. Bernardo como interpretação cultural dos sem religião

            Na obra São Bernardo, utilizada como lente interpretativa para esta pesquisa, a protagonista dos sem religião é Madalena. Se Madalena era de fato uma mulher não religiosa, caracterizada por um modelo de mulher destoante da imagem ideal, então há também que se pensar sobre as condições históricas, presentes no final do século XIX e início do XX, que possibilitaram o surgimento de tal mulher. Afinal de contas, a monarquia, a escravidão, a monocultura e a própria autoridade da Igreja estavam sendo contestados naquele período. Elementos como o surgimento de uma nova elite urbana e industrial vão contribuir enormemente para a construção de uma nova mentalidade, pondo em movimento a construção e legitimação de um novo projeto de poder.

            Portanto, Madalena, representa uma mulher desencaixada dos vínculos institucionais, essa imagem que Graciliano apresenta em sua obra pode ser interpretada como metáfora dos sem religião no Brasil contemporâneo. Assim como ela rompe com o modelo ideal de mulher religiosa e submissa, os “sem religião” se afastam das instituições tradicionais e criam seu próprio ethos. Quando os dados estatísticos do Censo do IBGE de 2010 registram 7,9% da população e em 2022 esse número sobe para 9,3%, esses números revelam que cada vez mais pessoas deixam de se orientar por instituições religiosas tradicionais à exemplo de Madalena. Como dito acima, previsões realizadas pelo Pew Research Center indicam que os sem religião podem alcançar o percentual de 15% em 2026, confirmando uma tendência histórica de crescimento contínuo com possível maior número de mulheres que se identificam com o seguimento sem religião. Essa mudança forja um novo cenário religioso brasileiro, ligado a fatores como a secularização da sociedade, o pluralismo religioso somado ao protagonismo juvenil urbano, mas também as condições e transformações históricas que alteram cada vez mais as realidade materiais da vida das mulheres.

            No estudo sobre as mulheres – denominado As Mulheres na História do Brasil (1994) – Mary Del Priore aponta elementos importantes que marcaram as práticas da Igreja em relação aos femininos durante o período colonial. Ela chama especial atenção para o fato de que a ênfase na construção de um modelo único de mulher, “obediente”, “recatado” e de “carnes tristes” (PRIORE, M. L. M, 1994, p.16) obedeceu aos interesses da Igreja Católica de fazer frente as críticas impostas pela Reforma de Lutero (1517) e a consequente urgência de reagir a essas críticas.

            Segundo Del Priore (1994), o fundamento histórico que explica a baixa adesão das mulheres entre os sem religião frente ao crescente número de homens pode ser encontrado na maneira como a igreja forjou a relação do feminino com a igreja. O grau de controle institucional da igreja sobre o feminino não foi o mesmo que o masculino, pois segundo a autora, o corpo feminino era controlado e disciplinado de forma rígida. A distinção desses papeis tem sido continuada até o século XIX, mas que agora passa cada vez mais a ser contestado graças a emergente mudança de mentalidade. Madalena é símbolo de libertação ao antecipar um perfil de mulher segundo o qual se identificam como sem religião e sem as amarras da religião institucional.

            Outro elemento importante para pensar a inserção da personagem Madalena no grupo dos sem religião, se deve a uma possível percepção realizada pelo público feminino de que a inserção delas no mercado de trabalho e a consequente construção de uma realidade mais autônoma as coloca em contraste com os interesses da religião dominante no Brasil. Como religião patriarcal, esse modelo de fé centra-se sobretudo na submissão das mulheres, com ênfase na sua atuação ao contexto doméstico. Na visão da autora bell hooks[7], em seu livro O Feminismo é para todo mundo(2020), a tradição cristã contribuiu para a elaboração de uma mentalidade primordialmente binária. Ou seja, fundamentou-se na oposição de termos como “fraco”, “forte”, “bem” e “mal” (hooks,2020, p.152), e também em ideias antagônicas como as de homem e mulher, favorecendo a produção, no Brasil, de um entendimento de espiritualidade e de sociedade fundamentado no sexismo e na dominação masculina. Daí a necessidade, de cada vez mais mulheres buscarem modelos religiosos alternativos para exercitarem sua espiritualidade.

            Se a projeção do PRC (2026) for confirmada, o número de mulheres que se identifica como sem religião também crescerá, ainda que em menor percentual em relação aos homens. Isso acontece, como visto, porque o crescimento deste seguimento no Brasil não é homogêneo, como também não foi homogêneo a distinção dos papeis entre homens e mulheres distribuídos pela Igreja. Tal como a personagem Madalena, as mulheres atuais estão cada vez mais assumindo postura crítica e de ruptura institucional na sociedade brasileira, reivindicando para si outras possibilidades de viver suas vidas e suas espiritualidades. Desse modo, não deixa de ser curioso observar que o segundo romance de Graciliano Ramos conseguiu antecipar em décadas um movimento de arrefecimento em relação ao Cristianismo católico.

A partir desta perspectiva, pode se afirmar que as ideias feministas vem contribuindo para o escancaramento dos valores sexistas presentes em toda a sociedade brasileira, inclusive, aquelas presentes em sua religião hegemônica. O controle do corpo feminino por instituições religiosas, na contemporaneidade vem sendo exposto de forma veemente e a luta por direitos iguais, por aumento da escolarização e maior participação da mulher no mercado de trabalho, exercendo funções antes inimagináveis, estão na ordem do dia. Todos esses elementos juntos ou separados contribuem para mudanças de mentalidades, colocando o feminino como protagonista, fazendo com que o grupo dos sem religião deixasse de ser irrelevante no período imperial para se tornar um fenômeno significativo na contemporaneidade.

            Além disso, a secularização da sociedade vem causando mudanças profundas no modo de ser e de agir das pessoas e a tecnologia e a ciência vão paulatinamente assumindo o controle sobre diferentes aspectos da vida social de muitos indivíduos. Essa inferência tira a centralidade da religião e a transfere para instâncias produtoras de significado mais racionais e menos mágicas. Desse modo, conforme Berger (1985), especialistas religiosos podem ser substituídos na reconfiguração cultural. O aumento no número de pessoas que se consideram sem religião é parte desse processo de reconfiguração. Aqui um ponto crucial: segundo Casanova (1994), não se trata do fim da religião, mas da reconfiguração dos ex seguidores por alternativas religiosas mais flexíveis e personalizadas. Fora do vínculo institucional a religiosidade do indivíduo apresenta diferentes facetas.

            A utilização do romance S. Bernardo, de Graciliano Ramos como percurso literário, metafórico, para compreensão do fenômeno dos sem religião no Brasil alude a um processo não de negação categórica de um ente transcendente, mas a reconfiguração do antigo modelo religioso existente e a elaboração de novos modelos de exercício da espiritualidade. Quando Paulo Honório, por exemplo, chama Madalena de “mulher sem religião” (RAMOS, 2012, p.155), sua fala suscita algumas problemáticas fundamentais: primeiro é o de pensar como é possível num mundo tão cristianizado a produção de uma professora sem religião. Será que Madalena não era cristã? Segundo, o de refletir sobre as razões do medo que a existência dessa possível “mulher sem religião”, fora dos padrões dominantes, evoca no imaginário masculino. Aqui se observa que o aumento de mulheres sem religião evoca não somente a transformações ligadas ao contexto religioso, mas também reivindica mudanças na antiga estrutura de sociedade, amparada no poderio masculino, posta em movimento neste território ainda no século XVI. Madalena antecipa, portanto, ainda no início do século XX, o perfil daqueles que desencaixados e em contraste com as instituições religiosas e sociais dominantes, lutam pela construção de uma nova sociedade.

É importante ainda que se diga que a elaboração de uma personagem como Madalena – professora formada na Escola Normal – leva inevitavelmente a reflexão sobre os processos educacionais posto em funcionamento no Brasil a partir daquele período. Sabe-se que a Igreja Católica teve uma importância crucial na fomentação da educação neste território. No entanto, Essa realidade começou a se modificar, de forma mais contundente, sobretudo a partir da Proclamação da República com a instauração do ensino laico e especialmente com a criação das Escolas Normais em Alagoas, posta em funcionamento em 1869. Assim, o que se observa é que a não religião da personagem passa por essas transformações que atravessaram não só a sociedade alagoana e brasileira da época, mas também as formas de se entender a educação e o papel que ela tinha na formação dos sujeitos. Nesta conjuntura, o ensino laico é condição sine qua non para pensar a possível não religiosidade da personagem.

Madalena representa um contraste histórico, pois não está alinhada com uma instituição religiosa específica, Madalena protesta contra a construção histórica do feminino que negava direitos e afirmava dominação patriarcal. Em alguma medida os sem religião de hoje possuem divergências diretas as instituições religiosas ao qual pertenciam, seja em relação ao papel feminino, ao uso de anticoncepcionais, virgindade, entre outros temas regulados pelo pensamento religioso. Nesse sentido, como os números dos censos não trazem as motivações que levaram os sem religião, a desfiliação ou negação institucional, conjectura-se que os sem religião na contemporaneidade possui pensamento desviante das normativas institucionais, isto é, estão em conflito com o pensamento centro institucional e por não encontrarem abertura dentro da instituição exercem sua autonomia e religiosidade fora dos padrões institucionais.

No que diz respeito as insatisfações das mulheres no seio da religião brasileira hegemônica podem ser observadas na base da produção dicotômica da visão de mulher, em terras brasileiras, pode ser encontrado nos diferentes lugares sociais ocupados por elas. Então não se trata apenas de ser contra a regulação moralmente dos corpos femininos, condicionados de variadas maneiras, mas também a oposição a instituição de  linhas rígidas entre as mulheres de elite e as de condições de existências subalternas, elemento que contribui para a elaboração de uma clara divisão social entre elas. Um ideário que opôs de uma lado as mulheres para casar, em geral brancas, e de outro, as mulheres para o desfrute sexual do homem branco – principalmente pretas, pardas forras, brancas pobres e indígenas, retratadas sempre de maneira sensual e voluptuosa. Nas palavras de Mary Del Priore ainda:

A hipocrisia deste sistema normativo - que quer eleger um modelo ideal de mulher para implantar, com sucesso, a família e a fé саtólica na colônia, - explicita-se claramente nos processos que desvendam as formas de contravenção às leis civis e eclesiásticas. Quão distantes da pregação erudita e religiosa não se encontravam as mulatas e negras forras e as brancas empobrecidas, todas mulheres livres a lutar contra as dificuldades do cotidiano(...) (PRIORE, M. L. M, 1994, p.20).

Recorrendo a citação da historiadora, se percebe que o conflito existente entre Paulo Honório e Madalena parece deitar raízes na dicotomia de femininos secularmente construída, já que encarnando a personagem um modelo de mulher diferente daquele modelo padrão foi facilmente relacionada ao seu oposto, passando a ser vista por seu marido como uma mulher de moral duvidosa e capaz de tudo.

Como se vê, a imagem de feminino ideal construída para as mulheres – especialmente reafirmada pelo discurso religioso – ainda no período colonial brasileiro se perpetuou pelo tempo, chegando a Primeira República e aos dias atuais. Nas décadas de Madalena, início do século XX, as mulheres continuavam a ser educadas para a castidade, a submissão, o cuidado com a casa, com os filhos e o marido e apesar da instauração da república, a cidadania para elas era negada, contemplando apenas “(...)os cidadãos maiores de 21 anos que se alistarem na forma da lei”[8] e que fossem também alfabetizados. É certo que não havia no texto constitucional a proibição expressa de que as mulheres não podiam votar. Mas, esses “cidadãos” foram lidos pela sociedade do tempo como homens apenas.

            À luz dos dados estatísticos do IBGE sobre o aumento de 7,9% dos sem religião em 2010 e contínuo crescimento no ano de 2022 atingindo 9,3% é razoável supor a existências de camadas de profundas mudanças na esfera cultural, elementos que como se disse acima os números não consegue revelar, isto é, nos dados oficiais há uma verticalização do crescimento dos sem religião, ele não é apenas quantitativo. Dados do quadro a seguir alude a projeção realizada pela Pew Research Center (PRC):

IBGE – Censo 2022:

Católicos: 56,7%

Evangélicos: 26,9%

Sem religião: 9,3%

Outras religiões: cerca de 7% (espíritas, afro-brasileiras, etc.)

 

Seguimento:

Percentual da população:

Católicos

46%

Evangélicos

29%

Sem religião

15%

Outros (espíritas, afro-brasileiras, etc.)

10%

Pew Research Center, análise de 2026 com base no IBGE, Censo 2022:

 

 

 

 

               Para o católico e marido de Madalena, sua esposa é de fato uma mulher de moral duvidosa. Uma encarnação de uma mulher comunista, materialista, sem religião. E aqui é importante que se diga que não há na narrativa fato conclusivo que aluda a uma não religiosidade em Madalena. O que esse trabalho busca desenvolver é uma possível interpretação da personagem. Além disso, não se deve esquecer que o teor confessional da narrativa de Paulo Honório, produzido em primeira pessoa, é um elemento que por si só demanda desconfianças. Na verdade, o que parece é que ao chamar a esposa de “mulher sem religião” o que o personagem faz é demonstrar seu mal-estar diante de uma mulher aparentemente superior a ele, uma mulher que tem conhecimentos que ele não possui, que não aceita ser sujeitada, que desafia a sua autoridade. 

            Para o marido de Madalena a religião em um homem é “dispensável”, porque demonstra a consciência do personagem de seu privilégio e de sua liberdade. Mas mesmo a despeito do reconhecimento de que é uma pessoa não religiosa, ou de religiosidade utilitária, defende que mulher sem religião é um perigo e que a fomentação do discurso religioso é fundamental como instrumento de legitimação e perpetuação de sua autoridade. O conflito entre masculino e feminino, presente em S. Bernardo, no tocante a religiosidade é o contraponto das narrativas religiosas como estrutura social de poder, um detalhe que é possível de ocorrer nas sociedades em processos de secularização. Desse modo, a religião perde sua centralidade e tem seus mecanismos de controle e sustentação expostos. Tanto a religião como a dominação patriarcal são colocadas em xeque diante do conflito de gênero no romance.

            Para Madalena o preço a pagar pela sua autencidade é enorme. Casada com um fazendeiro rural, se vê ela em um dilema profundo. A ela existe dois caminhos possíveis: ou se deixar dominar pelo marido negando a si mesma, ou se suicida, encontrando na morte uma saída para sua dor e para o risco de levar uma vida em desencardo com a mulher que ela se tornou. A personagem opta pela morte, ação que se desenrola a partir do capítulo XXXI do romance. A morte de Madalena é lida como metáfora daqueles que “morrem” para a dominação religiosa, estão libertos das amarras e condenações dogmáticas. A morte institucional significa para os sem religião deliberar suas autonomias sem condenações externas, sem exclusão clerical, sem penitenciar seus atos por estarem desencaixados com a autoridade religiosa.

 

Considerações Finais

 

            Esta pesquisa conectou uma das obras pioneiras sobre os sem religião no Brasil, chamada S. Bernardo, com as últimas estatísticas do IBGE (2010 e 2022) e as estimativas do Pew Research Center dos EUA para o Brasil. O processo de secularização em marcha, em sociedades religiosas tradicionais como o Brasil, sugere um aumento significativo do segmento chamado sem religião. Em 2010 o segmento representava 7,9% (cerca de 15,1 milhões de brasileiros) e em 2022 o percentual subiu para 9,3% (aproximadamente 18,9 milhões de pessoas) com um aumento de 1,4 pontos percentuais. Em doze anos cerca de 3,8 milhões a mais de pessoas se declararam sem religião no país. O Pew Research Center projeta que em 2026 esse número continue crescendo e atinja uma expressiva cifra de 30 milhões de brasileiros.

            Milhões de brasileiros escolhem não se identificar com as alternativas religiosas nos censos e esse é um fenômeno que não pode ser minimizado, pois que a mudança não é apenas estatística, mas no perfil cultural de muitas pessoas. Essas mudanças produzem impactos na superestrutura religiosa e preocupa tanto as lideranças quanto aos mercados religiosos. Na contraparte, cresce o mercado por demandas mais secularizadas e religiosidades personalizadas fora de sistemas religiosos tradicionais, pois não pertencer a um sistema religioso não significa ausência de religiosidade, mas de reconfiguração fora da instituição. Essas pessoas podem construir uma religiosidade mais acolhedora sem as tensões e tabus institucionais. Para estes a religião perde a centralidade, o temor e condenação não os dominam mais, pois considerados “mortos” institucionalmente, criam seus próprios rituais e cultos domésticos, personalizam e reconfiguram suas práticas. Estar morto institucionalmente significa estar livre da rotinização religiosa, a morte não é o fim, mas o nascimento de múltiplas “Madalenas, ” agora milhões! Homens e mulheres que veem os templos religiosos erigidos por seus ancestrais sendo resinificados pela secularização ao virarem espaços culturais, hotéis, cafés, território profano do que outrora foi sagrado. A autonomia espiritual dos indivíduos contrasta com a dependência, criada pela religião, de intermediários para acessar o sagrado. Sem religião o caminho está aberto para a experiência sem ritos opacos, exposições, sem pedir licença ao sacerdote, bispo, pastor. O acesso é direto, sem cerimônias, sem moeda de troca ou barganhas para pagar o divino.

 

 

 

 

Referências

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BERGER, Peter. L. O Dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.

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DEL PRIORE, Mary. As Mulheres na História do Brasil. 4. ed. São Paulo: Contexto, 1994.

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[1] Parte da reflexão aqui proposta está presente no trabalho de dissertação, ainda em produção, intitulado Historicidade em São Bernardo, de autoria de Myrian Gomes da Silva. Produzida no Programa de pós-graduação da Universidade Federal de Alagoas (PPGH-UFAL). Além disso, a utilização do termo femininos, ao invés de feminino, alude a existência de mais de um modelo de mulher dentro do contexto da formação do território brasileiro.

[2] Professor, sociólogo e mestre em Ciências das Religiões, pesquisador do Núcleo de Estudos da Religião na Educação e Sociedade - NERES/IFAL, AL. diassisaraujo28@hotmail.com

[3] Mestranda em História no PPGH-UFAL e professora de História e Ensino Religioso na rede básica de ensino do estado de Alagoas e também do município de Maceió. myriangomes7@hotmail.com

 

 

[4] S. Bernardo foi originalmente publicado em 1934 pela editora José Olympio e compõe junto com Caetés(1933) e Angustia(1938) o conjunto dos três romances, do autor Graciliano Ramos, produzido em I pessoa.

[5] Sabe-se que a construção de um ideário de identidade nacional não constituiu uma pauta exclusiva do Movimento de 1922, em São Paulo. Há quem defenda, e esse é o caso da historiadora Monica Velloso (2018), que a construção de uma literatura pautada na valorização dos elementos culturais múltiplos da formação da cultura brasileira já estava presente no que convencionou-se chamar de geração de 1870 (Tobias Barreto, Silvio Romero, Graça Aranha, Capistrano de Abreu e Euclides da Cunha). Por outro lado, há que se dizer que ainda havia nessa geração um ideal cientificista, ou seja, uma ideia de progresso à maneira da Europa, onde os elementos europeus eram vistos como superiores. Esse elemento no entanto já não pode ser identificado na geração de 20, já que para essa geração a valorização de alguns elementos da cultura europeia deveriam levar em consideração a primazia dos elementos nacionais.

[6] A narrativa romanesca presente em S. Bernardo é construída em primeira pessoa. Paulo Honório, após se tornar um poderoso coronel em sua região – Viçosa, Alagoas – decide casa-se com Madalena – professora humilde, inteligente, formada na Escola Normal – com o intuito de produzir um herdeiro para a sua propriedade. Mas para seu desespero as coisas não saem exatamente como o planejado e parte significativa da derrocada do personagem se dá em razão do seu espirito avarento, egoísta e brutal, que transformando-se em ciúmes leva a esposa ao suicídio. Em decadência, o proprietário decide então escrever um romance contando sua própria história, possibilitando assim a compreensão dos caminhos que os levaram aquela situação. Desse modo, Paulo Honório é concomitantemente narrador, personagem principal e também autor da narrativa, o que confere ao romance um aspecto singular e coloca inevitavelmente o discurso do personagem em suspeição.

[7] O uso das iniciais escritos em letras minúsculas alude a uma posição da autora em optar por assinar os seus textos dessa maneira, colocando em relevo não a sua autoria, mas o conteúdo nele impresso.

[8] A I constituição federal republicana brasileira traz os pré-requisitos ao alistamento eleitoral em seu artigo 70. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL (DE 24 DE FEVEREIRO DE 1891). Acesso em 29 de maio de 2026: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm

 

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