" Mulher sem religião é capaz de tudo": Uma reflexão sobre os femininos e aumento dos sem religião no Brasil, a partir de S. Bernardo de Graciliano Ramos[1]e do Censo do IBGE 2010 e 2022.
Francisco de Assis Pereira de Araújo
Myrian Gomes da Silva
Resumo
A pesquisa tem como objetivo fazer uma análise
qualitativa do crescente número de pessoas que se declaram sem religião nos
censos demográficos. A metodologia de pesquisa é de natureza documental e
estatística tomando como base o resultado quantitativo do Censo Demográfico do
IBGE 2010 e 2022, a divulgação de projeção para o ano de 2026 pelo centro de
estudos Pew Research Center (PRC) e a observação dos elementos que caracterizam
a formação do feminino incorporado na personagem Madalena do romance S.
Bernardo. Entre os resultados esperados estão a conexão entre as pessoas que se
declaram sem religião e seu alinhamento com processos de secularização em curso
na sociedade. Assim como a personagem Madalena, indivíduos que não se encaixam
nos moldes dos sistemas religiosos tendem a desfilar-se de instituições
religiosas tradicionais. A pesquisa conclui existir incompatibilidade de ideias
e visão de mundo entre o que apregoam as religiões tradicionais como o
Cristianismo. O contraste aumenta com o aumento da secularização da sociedade.
Palavras-chave: Madalena; Sem religião; São
Bernardo; Censo; IBGE
Introdução
Essa pesquisa analisa o
crescimento do seguimento sem religião no Brasil. O país desde sua colonização,
recebeu influência preponderante do catolicismo romano. Paralelo à
universalização do catolicismo concorreram diversas práticas religiosas e
indivíduos que não se identificavam com nenhuma alternativa e por isso são
chamados de sem religião. A relevância desse trabalho para a sociedade está no
combate ao fundamentalismo religioso ao preconceituar indivíduos que não estão
vinculados às instituições religiosas como se o não pertencimento significasse
que essas pessoas são irrreligiosas, isto é, a ausência de vínculo institucional
estaria ligada ao caráter menos moral e ético destes indivíduos.
Em 2010 o número de mulheres que se
identificaram como sem religião foi de 43,8% (IBGE, 2010). Já no censo do IBGE
(2022) o percentual de mulheres representa 44,5 % contra 56,2% dos homens. Embora
a maioria dos sem religião seja formada por homens, houve um acréscimo de 0,7 %
entre as mulheres. No que diz respeito a população total de pessoas
declaradamente sem religião no país estima-se que o aumento foi de 9,3% em
relação ao censo de 2010, totalizando em 2022 o montante de 16,4 milhões de
pessoas.
Um dos registros mais antigos de
brasileiros que se identificam como sem religião está na obra de Graciliano
Ramos intitulada S. Bernardo[4].
O contexto da época era de profundas mudanças na sociedade no início do século
XX, mudanças na educação, ascensão do movimento feminista por mais direitos
civis e contestação ao catolicismo. O modelo de identidade nacional ladrilhado no
século XX era de uma elite branca, cristã católica, que tinha condições de
estudar e era subsidiada pelo Estado. Essa hegemonia foi contestada pelo
Movimento Modernista de 1920 que optava pela inclusão ou imbricamento de
diferentes culturas oriundas da interpenetração cultural. Esse movimento rompia
com o pensamento vigente e passava a valorizar três fontes originárias do povo
brasileiro como, por exemplo, além da herança europeia, foram incluídas a
herança africana e a ameríndia[5].
Foi graças a essa inclusão que muitos outros elementos culturais passaram a
pertencer ao substrato cultural.
Autores clássicos como, por
exemplo, Comte (2008), desenvolveu uma teoria sobre a evolução das mentalidades
no modo de ser e de agir das pessoas, sobretudo em sociedades influenciadas por
Tradições religiosas. Assim, com o surgimento dos ideias do positivismo de
Augusto Comte, que previa o fim da religião através da evolução da sociedade, se
imaginou que o índice estatístico dos sem religião aumentaria assustadoramente
ao sair de uma perspectiva das crenças para uma perspectiva científica e
racionalista.
Esse processo de reengenharia
social se desdobra com os avanços da secularização e
da racionalização, implicando transformações profundas na
sociedade. Entre essas mudanças, destaca-se o que Weber chama de desencantamento
do mundo na obra Ciência como
Vocação caracterizado pela substituição das explicações mágico-religiosas
por interpretações técnico-científicas. Como consequência, cresce de maneira
expressiva o número de pessoas que se identificam como sem religião,
uma vez que a religião perde parte de sua função de produtora de significado,
tendo que concorrer com explicações mais materialistas e sendo progressivamente
reocupada pela ciência como referência central de compreensão da realidade.
Como se vê, o
objetivo geral desta discussão foi analisar o crescimento dos sem religião no
Brasil através do processo de secularização e racionalização da sociedade,
trazendo para tanto as estatísticas comparativas do IBGE (2010 e 2022) e os
dados do Pew Research Center (2026). Esses dados ajudam a compreender as
características desse grupo social, levando em conta o que esses censos
quantitativos não apresentam. Com essa finalidade, se fez uso da obra S.
Bernardo, de Graciliano Ramos, como recurso interpretativo, a fim de entender o
que leva a personagem Madalena a ser identificada como sem religião.
Como objetivos específicos preocupou-se
em examinar os censos do IBGE (2010 e 2022) e as projeções do Pew Research
Center (2026) a fim de identificar tendências histórico-sociais e projeções
futuras do crescimento dos sem religião no Brasil. O segundo objetivo procura
analisar a obra S. Bernardo como recurso literário que dialoga com questões da
contemporaneidade, especialmente no que se refere às diferentes formas de
religiosidade e as tensões entre a hegemonia católica e outras expressões
religiosas diante dos processos de secularização da sociedade.
O terceiro
objetivo visa interpretar a personagem Madalena como representação simbólica
dos sujeitos que se identificam como sem religião nos censos. Na obra, a
personagem apresenta pensamento crítico e resistência ao catolicismo dominante,
bem como um envolvimento superficial, isto é, se utiliza dela quando lhe convém,
mas sem vínculo. Essa atitude reflete parte de um aspecto da realidade atual em
que grande número de católicos não se identificam mais com a instituição e essa
constatação é evidenciado nos últimos censos demográficos com a perda crescente
no número de fiéis.
A
justificativa metodológica desta pesquisa, como já anteriormente mencionada,
fundamenta-se na análise combinatória entre as métricas de dados oficiais, as
projeções internacionais e a análise do romance São Bernardo. A escolha por
esse modelo metodológico permitiu compreender a reconfiguração do novo cenário
religioso que se desenha ultrapassando as barreiras da observação direta para a
observação participante. Com o método qualitativo foi possível interpretar o
contexto social, as rupturas com o poder estabelecido e as continuidades
históricas possibilitando, dessa maneira, ampla análise sobre os dados do IBGE
(2010 e 2022) e , as previsões do Pew Research Center (2026), integrando a obra
literária de São Bernardo como recurso interpretativo. O método de análise
qualitativa revelou que o aumento dos sem religião no Brasil é um fenômeno
complexo possuindo diferentes nuances além do quantitativo.
O sem
religião e o processo de secularização
O
crescimento dos sem religião no Brasil
constitui um processo de secularização que desafia a hegemonia das tradições
religiosas abrindo espaço para novas formas de identidade. A literatura
brasileira, em especial S. Bernardo[6]
de Graciliano Ramos, oferece elementos para compreender esse processo
disruptivo. A personagem Madalena, professora formada na Escola Normal, encarna
uma religiosidade crítica e uma postura feminista que tensiona os modelos
tradicionais de gênero e fé. Como observa o romance, quando Paulo Honório chama Madalena de “mulher sem religião”, ele o faz
porque julga encontrar na esposa vestígios que aludem à ausência da religião dominante
(RAMOS, 2012, p.155). A fala de Honório ecoa uma preocupação com a
ausência de vínculo religioso-institucional podendo ser sentida como uma ameaça
ao establishment
da época. Essa
condição na obra antecipou debates que atualmente constituem objetos de estudo
sobre as novas configurações sociais. Considerando que
atualmente há uma preocupação com o fenômeno dos sem religião, a leitura da
obra que é de 1934, torna-se ainda mais significativa, visto que o contexto
atual é de múltiplas Madalenas – símbolo de novas maneiras de ser e de agir
sobre a religiosidade confrontando as instituições tradicionais.
Para
algumas pessoas a secularização da sociedade é uma alternativa segura aos que
caminham libertos do pensamento religioso, nesse caso passa a existir uma
tensão entre religião e secularização e a partir desse tencionamento a religião
poderia em algum momento ser substituída por trilhas mais racionalistas. Com
essa transformação é inaugurado um processo de intelectualização em que não
seria mais necessário recorrer à magia para se obter favores espirituais
(BAPTISTA; PASSOS; SILVA, 2008). Segundo os autores, há indicadores que revelam
essa ruptura, por exemplo, a existência de leis que garantem o divórcio contra
dogmas de insolubilidade do casamento. A secularização oferece há todas as
pessoas soluções terrenas para seus problemas. Essa característica, observam os
autores, seduzem muitos indivíduos ou grupos de pessoas que veem nas normas
religiosas uma rigidez irracional que contribuem para o distanciamento de
práticas religiosas tradicionais. “ Secularização é a presença do racional, do
utilitário e da terrenalidade, no campo da economia, da política e dos
costumes. A secularização se distancia, na vida social do sagrado. ” (BAPTISTA;
PASSOS; SILVA, 2008, p. 128).
Além
disso, segundo Berger (1985), o conceito de secularização empregado por setores
anticlericais e progressistas é entendido como a libertação do homem do
controle religioso. Para ele, esse movimento é um processo que vai
paulatinamente desvencilhando o homem dos símbolos e instituições religiosas em
que a separação entre Igreja e Estado confirma essa ruptura. Já para Casanova
(1994), com a secularização a religião perde a importância de ser a única
instituição determinante dos valores e normas e passa a conviver com uma
pluralidade de instâncias promotoras de significados. Consequentemente, a maior
oferta de bens simbólicos por outras instituições religiosas contribui para o
refluxo de pessoas à outras denominações religiosas bem como identificar-se
como sem religião. Nesse aspecto dos sem religião, o autor adverte que essa
postura identitária não significa afirmar que os sem religião não possuam
religiosidade, mas que a ritualização perde sua importância para a escolha
individual dos indivíduos. A secularização não implica o fim da religião, mas a
reconfiguração para o novo mercado religioso.
Madalena: de minoria insignificante aos expressivos resultados
do IBGE e Pew Research Center
Nos
dias atuais, cada vez mais, o termo “nones” se populariza para se referir
justamente às pessoas que não professam pertença institucional religiosa. Estão
inclusos nesse segmento os ateus, os agnósticos e céticos. Esse grupo tem sido
notado nos Estados Unidos desde a década de 1940 e de lá para cá tem estado em
contínua ascensão tanto naquele país como aqui no Brasil. Esse é um fenômeno
que não pode ser negligenciado, sobretudo numa nação majoritariamente
evangélica como os Estados Unidos ou no caso brasileiro de hegemonia católica,
ambos com grande rebanho de pertencimento cristão. Segundo Rodrigues Chaves
(2025), o Brasil possui a quarta maior porcentagem na América Latina em número
de indivíduos que se identificam como nones. O público que mais se identifica
com o seguimento são, na maioria, jovens que não seguem nenhuma religião ou são
desingrejados, negam a existência de uma ou mais divindades, duvidam de uma
realidade sobrenatural estabelecida pelas instituições tradicionais. Ao invés
disso, simpatizam-se com a ideia do sincretismo religioso, práticas livres de
espiritualidades, relativismo e o pluralismo religioso sem, no entanto,
centralizar uma única prática como a verdadeira (RODRIGUES CHAVES, 2025).
Segundo Juliano (2023), os nones no
Brasil são conhecidos como “sem religião” e sua presença é mais massiva em
países desenvolvidos como Suécia, Dinamarca, França e Alemanha. Esse elemento constitui
um fenômeno a ser investigado no Brasil, visto que esse grupo vem crescendo
paulatinamente à medida que decresce o número de católicos no país. Para o
autor, uma característica marcante dos nones no Brasil é a combinação de
diversos elementos de fé por esse grupo. Para ele, se identificar como nones ou
sem religião não significa que não possuem espiritualidade, mas sim, que não
estão vinculados a nenhuma denominação como fiel ou seguidor institucional.
O
Censo de 2010 registra o aumento do seguimento sem religião com cerca de 15.3
milhões de brasileiros que se identificam fora das religiões tradicionais. O
estado com maior número de pessoas que se identificam com o grupo é o Rio de
Janeiro representando 16% dos entrevistados. Mas, há presença expressiva no
Amazonas, Pará, Mato Grosso, Goiás e fronteira do Rio Grande do Sul com o
Paraguai. Assim como Madalena, os Sem religião estão desencaixados dos laços
institucionais, encontram-se em busca de uma nova identidade, pois muitos
apresentam desvinculação de uma religião, personalizam suas crenças adicionando
elementos de diferentes religiosidades, excluem ou reatualizam outras. O perfil
do grupo, segundo o Censo de 2010 é de uma expressiva população jovem com média
de 26 anos, vivem nas zonas urbanas, centralizados na região Sudeste do país.
Apresentam histórico de vínculo institucional por diferentes religiões
(característico do trânsito religioso), anseiam um novo modo de ser fora e à
margem dos vínculos religiosos institucionais. (TEIXEIRA; MENEZES, 2010)
Além
disso, estimativas levantadas pelo Pew Research Center (PRC) para o ano de 2026
sobre os sem religião no Brasil, considera que “the religiously unaffiliated
are projected to continue growing in Latin America” (tradução livre: projeta-se que os sem religião devem
continuar crescendo na América Latina). Segundo as projeções feitas
por esse órgão internacional os sem religião podem atingir 15% dos brasileiros
em 2026. Essa estimativa confirma uma tendência que só vem crescendo desde o
período imperial. Em 2010, o IBGE registrou 7,9% da população brasileira, já em
2022 esse número subiu para 9,3%. Os sem religião vão se tornando um grupo de
contínua expressividade e seu crescimento ao longo dos séculos reconfigura o
cenário religioso associado a fatores como a secularização da sociedade e
diversidade religiosa. Além da presença majoritariamente masculina, esse grupo
social se destaca pela grande presença de jovens, concentrando-se mais nas
cidades do que em zonas rurais.
Pioneirismo
de S. Bernardo como interpretação cultural dos sem religião
Na
obra São Bernardo, utilizada como lente interpretativa para esta pesquisa, a
protagonista dos sem religião é Madalena. Se Madalena era de fato uma mulher
não religiosa, caracterizada por um modelo de mulher destoante da imagem ideal,
então há também que se pensar sobre as condições históricas, presentes no final
do século XIX e início do XX, que possibilitaram o surgimento de tal mulher.
Afinal de contas, a monarquia, a escravidão, a monocultura e a própria
autoridade da Igreja estavam sendo contestados naquele período. Elementos como
o surgimento de uma nova elite urbana e industrial vão contribuir enormemente
para a construção de uma nova mentalidade, pondo em movimento a construção e
legitimação de um novo projeto de poder.
Portanto,
Madalena, representa uma mulher desencaixada dos vínculos institucionais, essa
imagem que Graciliano apresenta em sua obra pode ser interpretada como metáfora
dos sem religião no Brasil contemporâneo. Assim como ela rompe com o modelo
ideal de mulher religiosa e submissa, os “sem religião” se afastam das
instituições tradicionais e criam seu próprio ethos. Quando os dados estatísticos
do Censo do IBGE de 2010 registram 7,9% da população
e em 2022 esse número sobe para 9,3%, esses números revelam que cada vez mais
pessoas deixam de se orientar por instituições religiosas tradicionais à
exemplo de Madalena. Como dito acima, previsões realizadas pelo Pew
Research Center indicam que os sem religião podem alcançar o
percentual de 15% em 2026, confirmando uma tendência histórica
de crescimento contínuo com possível maior número de mulheres que se identificam
com o seguimento sem religião. Essa mudança forja um novo cenário religioso
brasileiro, ligado a fatores como a secularização da sociedade, o pluralismo religioso
somado ao protagonismo juvenil urbano, mas também as condições
e transformações históricas que alteram cada vez mais as realidade materiais da
vida das mulheres.
No estudo sobre as
mulheres – denominado As Mulheres na
História do Brasil (1994) – Mary Del Priore aponta elementos importantes
que marcaram as práticas da Igreja em relação aos femininos durante o período
colonial. Ela chama especial atenção para o fato de que a ênfase na construção
de um modelo único de mulher, “obediente”, “recatado” e de “carnes tristes”
(PRIORE, M. L. M, 1994, p.16) obedeceu
aos interesses da Igreja Católica de fazer frente as críticas impostas pela
Reforma de Lutero (1517) e a consequente urgência de reagir a essas críticas.
Segundo Del Priore
(1994), o fundamento histórico que explica a baixa adesão das mulheres entre os
sem religião frente ao crescente número de homens pode ser encontrado na
maneira como a igreja forjou a relação do feminino com a igreja. O grau de
controle institucional da igreja sobre o feminino não foi o mesmo que o
masculino, pois segundo a autora, o corpo feminino era controlado e
disciplinado de forma rígida. A distinção desses papeis tem sido continuada até
o século XIX, mas que agora passa cada vez mais a ser contestado graças a
emergente mudança de mentalidade. Madalena é símbolo de libertação ao antecipar
um perfil de mulher segundo o qual se identificam como sem religião e sem as
amarras da religião institucional.
Outro elemento
importante para pensar a inserção da personagem Madalena no grupo dos sem
religião, se deve a uma possível percepção realizada pelo público feminino de
que a inserção delas no mercado de trabalho e a consequente construção de uma
realidade mais autônoma as coloca em contraste com os interesses da religião
dominante no Brasil. Como religião patriarcal, esse modelo de fé centra-se
sobretudo na submissão das mulheres, com ênfase na sua atuação ao contexto
doméstico. Na visão da autora bell hooks[7], em seu livro O Feminismo é para todo mundo(2020), a tradição cristã contribuiu
para a elaboração de uma mentalidade primordialmente binária. Ou seja, fundamentou-se
na oposição de termos como “fraco”, “forte”, “bem” e “mal” (hooks,2020, p.152),
e também em ideias antagônicas como as de homem e mulher, favorecendo a
produção, no Brasil, de um entendimento de espiritualidade e de sociedade
fundamentado no sexismo e na dominação masculina. Daí a necessidade, de cada
vez mais mulheres buscarem modelos religiosos alternativos para exercitarem sua
espiritualidade.
Se
a projeção do PRC (2026) for confirmada, o número de mulheres que se identifica
como sem religião também crescerá, ainda que em menor percentual em relação aos
homens. Isso acontece, como visto, porque o crescimento deste seguimento no
Brasil não é homogêneo, como também não foi homogêneo a distinção dos papeis
entre homens e mulheres distribuídos pela Igreja. Tal como a personagem
Madalena, as mulheres atuais estão cada vez mais assumindo postura crítica e de
ruptura institucional na sociedade brasileira, reivindicando para si outras
possibilidades de viver suas vidas e suas espiritualidades. Desse modo, não
deixa de ser curioso observar que o segundo romance de Graciliano Ramos conseguiu
antecipar em décadas um movimento de arrefecimento em relação ao Cristianismo
católico.
A partir desta
perspectiva, pode se afirmar que as ideias feministas vem contribuindo para o
escancaramento dos valores sexistas presentes em toda a sociedade brasileira,
inclusive, aquelas presentes em sua religião hegemônica. O controle do corpo
feminino por instituições religiosas, na contemporaneidade vem sendo exposto de
forma veemente e a luta por direitos iguais, por aumento da escolarização e
maior participação da mulher no mercado de trabalho, exercendo funções antes
inimagináveis, estão na ordem do dia. Todos esses elementos juntos ou separados
contribuem para mudanças de mentalidades, colocando o feminino como
protagonista, fazendo com que o grupo dos sem religião deixasse de ser
irrelevante no período imperial para se tornar um fenômeno significativo na
contemporaneidade.
Além
disso, a secularização da sociedade vem causando mudanças profundas no modo de
ser e de agir das pessoas e a tecnologia e a ciência vão paulatinamente
assumindo o controle sobre diferentes aspectos da vida social de muitos
indivíduos. Essa inferência tira a centralidade da religião e a transfere para
instâncias produtoras de significado mais racionais e menos mágicas. Desse
modo, conforme Berger (1985), especialistas religiosos podem ser substituídos
na reconfiguração cultural. O aumento no número de pessoas que se consideram
sem religião é parte desse processo de reconfiguração. Aqui um ponto crucial:
segundo Casanova (1994), não se trata do fim da religião, mas da reconfiguração
dos ex seguidores por alternativas religiosas mais flexíveis e personalizadas.
Fora do vínculo institucional a religiosidade do indivíduo apresenta diferentes
facetas.
A
utilização do romance S. Bernardo, de Graciliano Ramos como percurso literário,
metafórico, para compreensão do fenômeno dos sem religião no Brasil alude a um
processo não de negação categórica de um ente transcendente, mas a reconfiguração
do antigo modelo religioso existente e a elaboração de novos modelos de
exercício da espiritualidade. Quando Paulo Honório, por exemplo, chama Madalena
de “mulher sem religião” (RAMOS, 2012, p.155), sua fala suscita algumas
problemáticas fundamentais: primeiro é o de pensar como é possível num mundo
tão cristianizado a produção de uma professora sem religião. Será que Madalena
não era cristã? Segundo, o de refletir sobre as razões do medo que a existência
dessa possível “mulher sem religião”, fora dos padrões dominantes, evoca no
imaginário masculino. Aqui se observa que o aumento de mulheres sem religião
evoca não somente a transformações ligadas ao contexto religioso, mas também
reivindica mudanças na antiga estrutura de sociedade, amparada no poderio
masculino, posta em movimento neste território ainda no século XVI. Madalena
antecipa, portanto, ainda no início do século XX, o perfil daqueles que desencaixados
e em contraste com as instituições religiosas e sociais dominantes, lutam pela
construção de uma nova sociedade.
É
importante ainda que se diga que a elaboração de uma personagem como Madalena –
professora formada na Escola Normal – leva inevitavelmente a reflexão sobre os
processos educacionais posto em funcionamento no Brasil a partir daquele
período. Sabe-se que a Igreja Católica teve uma importância crucial na
fomentação da educação neste território. No entanto, Essa realidade começou a
se modificar, de forma mais contundente, sobretudo a partir da Proclamação da
República com a instauração do ensino laico e especialmente com a criação das
Escolas Normais em Alagoas, posta em funcionamento em 1869. Assim, o que se
observa é que a não religião da personagem passa por essas transformações que atravessaram
não só a sociedade alagoana e brasileira da época, mas também as formas de se
entender a educação e o papel que ela tinha na formação dos sujeitos. Nesta
conjuntura, o ensino laico é condição sine
qua non para pensar a possível não religiosidade da personagem.
Madalena
representa um contraste histórico, pois não está alinhada com uma instituição
religiosa específica, Madalena protesta contra a construção histórica do
feminino que negava direitos e afirmava dominação patriarcal. Em alguma medida
os sem religião de hoje possuem divergências diretas as instituições religiosas
ao qual pertenciam, seja em relação ao papel feminino, ao uso de
anticoncepcionais, virgindade, entre outros temas regulados pelo pensamento
religioso. Nesse sentido, como os
números dos censos não trazem as motivações que levaram os sem religião, a
desfiliação ou negação institucional, conjectura-se que os sem religião na
contemporaneidade possui pensamento desviante das normativas institucionais,
isto é, estão em conflito com o pensamento centro institucional e por não
encontrarem abertura dentro da instituição exercem sua autonomia e
religiosidade fora dos padrões institucionais.
No que diz respeito as insatisfações das mulheres no
seio da religião brasileira hegemônica podem ser observadas na base da produção
dicotômica da visão de mulher, em terras brasileiras, pode ser encontrado nos
diferentes lugares sociais ocupados por elas. Então não se trata apenas de ser
contra a regulação moralmente dos corpos femininos, condicionados de variadas
maneiras, mas também a oposição a instituição de linhas rígidas entre as mulheres de elite e as
de condições de existências subalternas, elemento que contribui para a
elaboração de uma clara divisão social entre elas. Um ideário que opôs de uma
lado as mulheres para casar, em geral brancas, e de outro, as mulheres para o
desfrute sexual do homem branco – principalmente pretas, pardas forras, brancas
pobres e indígenas, retratadas sempre de maneira sensual e voluptuosa. Nas
palavras de Mary Del Priore ainda:
A hipocrisia deste sistema normativo - que quer
eleger um modelo ideal de mulher para implantar, com sucesso, a família e a fé
саtólica na colônia, - explicita-se claramente nos processos que desvendam as
formas de contravenção às leis civis e eclesiásticas. Quão distantes da
pregação erudita e religiosa não se encontravam as mulatas e negras forras e as
brancas empobrecidas, todas mulheres livres a lutar contra as dificuldades do
cotidiano(...) (PRIORE, M. L. M, 1994, p.20).
Recorrendo a citação da historiadora, se percebe que
o conflito existente entre Paulo Honório e Madalena parece deitar raízes na
dicotomia de femininos secularmente construída, já que encarnando a personagem
um modelo de mulher diferente daquele modelo padrão foi facilmente relacionada ao
seu oposto, passando a ser vista por seu marido como uma mulher de moral
duvidosa e capaz de tudo.
Como se vê, a imagem de feminino ideal construída
para as mulheres – especialmente reafirmada pelo discurso religioso – ainda no
período colonial brasileiro se perpetuou pelo tempo, chegando a Primeira
República e aos dias atuais. Nas décadas de Madalena, início do século XX, as
mulheres continuavam a ser educadas para a castidade, a submissão, o cuidado
com a casa, com os filhos e o marido e apesar da instauração da república, a
cidadania para elas era negada, contemplando apenas “(...)os cidadãos maiores
de 21 anos que se alistarem na forma da lei”[8]
e que fossem também alfabetizados. É certo que não havia no texto
constitucional a proibição expressa de que as mulheres não podiam votar. Mas,
esses “cidadãos” foram lidos pela sociedade do tempo como homens apenas.
À
luz dos dados estatísticos do IBGE sobre o aumento de 7,9% dos sem religião em
2010 e contínuo crescimento no ano de 2022 atingindo 9,3% é razoável supor a
existências de camadas de profundas mudanças na esfera cultural, elementos que
como se disse acima os números não consegue revelar, isto é, nos dados oficiais
há uma verticalização do crescimento dos sem religião, ele não é apenas
quantitativo. Dados do quadro a seguir alude a projeção realizada pela Pew
Research Center (PRC):
IBGE – Censo 2022:
Católicos: 56,7%
Evangélicos: 26,9%
Sem religião: 9,3%
Outras religiões: cerca de 7%
(espíritas, afro-brasileiras, etc.)
|
Seguimento: |
Percentual
da população: |
|
Católicos |
46% |
|
Evangélicos |
29% |
|
Sem religião |
15% |
|
Outros (espíritas,
afro-brasileiras, etc.) |
10% |
Pew Research Center, análise de 2026
com base no IBGE, Censo 2022:
Para o católico e
marido de Madalena, sua esposa é de fato uma mulher de moral duvidosa. Uma
encarnação de uma mulher comunista, materialista, sem religião. E aqui é
importante que se diga que não há na narrativa fato conclusivo que aluda a uma
não religiosidade em Madalena. O que esse trabalho busca desenvolver é uma
possível interpretação da personagem. Além disso, não se deve esquecer que o
teor confessional da narrativa de Paulo Honório, produzido em primeira pessoa,
é um elemento que por si só demanda desconfianças. Na verdade, o que parece é
que ao chamar a esposa de “mulher sem religião” o que o personagem faz é
demonstrar seu mal-estar diante de uma mulher aparentemente superior a ele, uma
mulher que tem conhecimentos que ele não possui, que não aceita ser sujeitada,
que desafia a sua autoridade.
Para
o marido de Madalena a religião em um homem é “dispensável”, porque demonstra a
consciência do personagem de seu privilégio e de sua liberdade. Mas mesmo a
despeito do reconhecimento de que é uma pessoa não religiosa, ou de
religiosidade utilitária, defende que mulher sem religião é um perigo e que a
fomentação do discurso religioso é fundamental como instrumento de legitimação
e perpetuação de sua autoridade. O conflito entre masculino e feminino,
presente em S. Bernardo, no tocante a religiosidade é o contraponto das
narrativas religiosas como estrutura social de poder, um detalhe que é possível
de ocorrer nas sociedades em processos de secularização. Desse modo, a religião
perde sua centralidade e tem seus mecanismos de controle e sustentação expostos.
Tanto a religião como a dominação patriarcal são colocadas em xeque diante do
conflito de gênero no romance.
Para
Madalena o preço a pagar pela sua autencidade é enorme. Casada com um
fazendeiro rural, se vê ela em um dilema profundo. A ela existe dois caminhos
possíveis: ou se deixar dominar pelo marido negando a si mesma, ou se suicida,
encontrando na morte uma saída para sua dor e para o risco de levar uma vida em
desencardo com a mulher que ela se tornou. A personagem opta pela morte, ação
que se desenrola a partir do capítulo XXXI do romance. A morte de Madalena é
lida como metáfora daqueles que “morrem” para a dominação religiosa, estão
libertos das amarras e condenações dogmáticas. A morte institucional significa
para os sem religião deliberar suas autonomias sem condenações externas, sem
exclusão clerical, sem penitenciar seus atos por estarem desencaixados com a
autoridade religiosa.
Considerações Finais
Esta
pesquisa conectou uma das obras pioneiras sobre os sem religião no Brasil,
chamada S. Bernardo, com as últimas estatísticas do IBGE (2010 e 2022) e as
estimativas do Pew Research Center dos EUA para o Brasil. O processo de
secularização em marcha, em sociedades religiosas tradicionais como o Brasil,
sugere um aumento significativo do segmento chamado sem religião. Em 2010 o
segmento representava 7,9% (cerca de 15,1 milhões de brasileiros) e em 2022 o
percentual subiu para 9,3% (aproximadamente 18,9 milhões de pessoas) com um
aumento de 1,4 pontos percentuais. Em doze anos cerca de 3,8 milhões a mais de
pessoas se declararam sem religião no país. O Pew Research Center projeta que
em 2026 esse número continue crescendo e atinja uma expressiva cifra de 30
milhões de brasileiros.
Milhões
de brasileiros escolhem não se identificar com as alternativas religiosas nos
censos e esse é um fenômeno que não pode ser minimizado, pois que a mudança não
é apenas estatística, mas no perfil cultural de muitas pessoas. Essas mudanças
produzem impactos na superestrutura religiosa e preocupa tanto as lideranças
quanto aos mercados religiosos. Na contraparte, cresce o mercado por demandas
mais secularizadas e religiosidades personalizadas fora de sistemas religiosos
tradicionais, pois não pertencer a um sistema religioso não significa ausência
de religiosidade, mas de reconfiguração fora da instituição. Essas pessoas
podem construir uma religiosidade mais acolhedora sem as tensões e tabus
institucionais. Para estes a religião perde a centralidade, o temor e
condenação não os dominam mais, pois considerados “mortos” institucionalmente,
criam seus próprios rituais e cultos domésticos, personalizam e reconfiguram
suas práticas. Estar morto institucionalmente significa estar livre da
rotinização religiosa, a morte não é o fim, mas o nascimento de múltiplas “Madalenas,
” agora milhões! Homens e mulheres que veem os templos religiosos erigidos por
seus ancestrais sendo resinificados pela secularização ao virarem espaços
culturais, hotéis, cafés, território profano do que outrora foi sagrado. A
autonomia espiritual dos indivíduos contrasta com a dependência, criada pela
religião, de intermediários para acessar o sagrado. Sem religião o caminho está
aberto para a experiência sem ritos opacos, exposições, sem pedir licença ao
sacerdote, bispo, pastor. O acesso é direto, sem cerimônias, sem moeda de troca
ou barganhas para pagar o divino.
Referências
BAPTISTA, Paulo. A. N. PASSOS, Mauro;
Silva, Wellington, T. O sagrado e o
urbano: diversidades, manifestações e análises. São Paulo: Paulinas, 2008.
[Coleção estudos da ABHR].
BRASIL. Constituição da
República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891_Disponível_em:_https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>.
Acesso em: 29 maio 2026.
BERGER, Peter. L. O Dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião.
São Paulo: Paulus, 1985.
CASANOVA, José. Religiões
públicas no mundo moderno. São Paulo: Editora Vozes, 1994.
COMTE, Auguste. Discurso
sobre o espírito positivo. São Paulo: Escala,2008. [Coleção Grandes Obras
do Pensamento Universal].
DEL PRIORE,
Mary. As Mulheres na História do Brasil. 4. ed. São Paulo: Contexto, 1994.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo
Demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com
deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em Censo 2010 | IBGE. Acesso em 16 de Jun. de 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo
Demográfico 2022: religião. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em Censo
Demográfico 2022.
Acesso em 16 de Jun. de 2026.
JULIANO,
Marcos.
Sem religião no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.
PEW
RESEARCH CENTER. Religious Composition in Latin America: Trends and
Projections. Washington, D.C.: Pew Research Center, 2026. Disponível em Pew
Research Center | Nonpartisan, nonadvocacy, public opinion polling and
data-driven social science research.
Acesso em 16 de Jun. de 2026.
RAMOS,
Graciliano. S. Bernardo. Rio de Janeiro:
Record, 2012.
RODRIGUES
CHAVES, João.
Nones na América Latina. Rio de Janeiro: Paulus, 2025.
TEIXEIRA,
Faustino; MENEZES, Renata. Religiões no Brasil: continuidades e
rupturas. Petrópolis: Vozes, 2010.
VELLOSO, M.P. O Modernismo e a questão Nacional.
In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Orgs). Brasil
Republicano. Vol. 1: O Tempo do Liberalismo Excludente: Da Proclamação da
República à Revolução de 30. 10 edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2018, p. 337-372.
WEBER, Max. Ciência como vocação. In: Ensaios
de Sociologia. São Paulo: Cultrix, [s.d.].
[1]
Parte da reflexão aqui
proposta está presente no trabalho de dissertação, ainda em produção,
intitulado Historicidade em São Bernardo,
de autoria de Myrian Gomes da Silva. Produzida no Programa de pós-graduação da
Universidade Federal de Alagoas (PPGH-UFAL). Além disso, a utilização do termo
femininos, ao invés de feminino, alude a existência de mais de um modelo de
mulher dentro do contexto da formação do território brasileiro.
[2] Professor, sociólogo e mestre em
Ciências das Religiões, pesquisador do Núcleo de Estudos da Religião na
Educação e Sociedade - NERES/IFAL, AL. diassisaraujo28@hotmail.com
[3]
Mestranda em História no
PPGH-UFAL e professora de História e Ensino Religioso na rede básica de ensino
do estado de Alagoas e também do município de Maceió. myriangomes7@hotmail.com
[4]
S. Bernardo foi originalmente
publicado em 1934 pela editora José Olympio e compõe junto com Caetés(1933) e
Angustia(1938) o conjunto dos três romances, do autor Graciliano Ramos,
produzido em I pessoa.
[5]
Sabe-se que a construção de
um ideário de identidade nacional não constituiu uma pauta exclusiva do
Movimento de 1922, em São Paulo. Há quem defenda, e esse é o caso da
historiadora Monica Velloso (2018), que a construção de uma literatura pautada
na valorização dos elementos culturais múltiplos da formação da cultura
brasileira já estava presente no que convencionou-se chamar de geração de 1870
(Tobias Barreto, Silvio Romero, Graça Aranha, Capistrano de Abreu e Euclides da
Cunha). Por outro lado, há que se dizer que ainda havia nessa geração um ideal
cientificista, ou seja, uma ideia de progresso à maneira da Europa, onde os elementos
europeus eram vistos como superiores. Esse elemento no entanto já não pode ser
identificado na geração de 20, já que para essa geração a valorização de alguns
elementos da cultura europeia deveriam levar em consideração a primazia dos
elementos nacionais.
[6]
A narrativa romanesca
presente em S. Bernardo é construída em primeira pessoa. Paulo Honório, após se
tornar um poderoso coronel em sua região – Viçosa, Alagoas – decide casa-se com
Madalena – professora humilde, inteligente, formada na Escola Normal – com o
intuito de produzir um herdeiro para a sua propriedade. Mas para seu desespero
as coisas não saem exatamente como o planejado e parte significativa da
derrocada do personagem se dá em razão do seu espirito avarento, egoísta e
brutal, que transformando-se em ciúmes leva a esposa ao suicídio. Em
decadência, o proprietário decide então escrever um romance contando sua
própria história, possibilitando assim a compreensão dos caminhos que os
levaram aquela situação. Desse modo, Paulo Honório é concomitantemente
narrador, personagem principal e também autor da narrativa, o que confere ao romance um aspecto
singular e coloca inevitavelmente o discurso do personagem em suspeição.
[7] O uso das iniciais escritos em
letras minúsculas alude a uma posição da autora em optar por assinar os seus
textos dessa maneira, colocando em relevo não a sua autoria, mas o conteúdo
nele impresso.
[8]
A I constituição federal
republicana brasileira traz os pré-requisitos ao alistamento eleitoral em seu
artigo 70. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL (DE 24 DE
FEVEREIRO DE 1891). Acesso em 29 de maio de 2026: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário, sua mensagem é muito importante para nós.