Resenha: História da Ciência da Religião. São Paulo: PUC, 2014 - Revista Ciber Teologia: Teologia & Cultura, Ano X, n. 47, p. 139-150




No artigo intitulado História da Ciência da Religião, Frank Usarski (2014) procura dialogar sobre os caminhos que a Ciência da Religião tem percorrido nos últimos 100 anos, seus constituintes e orientações das pesquisas no mundo moderno. O autor destaca a fase de formação da disciplina, sua institucionalização, os esforços de intelectuais, as publicações, articulações e o caminho aberto para novas contribuições.

Inicialmente o autor fala do lugar atual que a Ciência da Religião ocupa no mundo científico, segundo ele, dedicado ao estudo histórico e sistemático tendo por objeto de estudo o mundo empírico. Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre os fatos do fenômeno religioso a Ciência da Religião se afasta dos dogmas de fé para conhecer múltiplas experiências religiosas ao invés de preterir suas práticas. Segundo Usarski (2014), a Ciência da Religião assume atualmente postura mais epistemológica graças ao uso de técnicas como a observação e descrição em busca de uma metodologia e imparcialidade. Para o autor essas características que compõem o trabalho eurístico do pesquisador legaram a disciplina o status de maturidade e homogeneidade.


A formação programática e a institucionalização da Ciência da Religião, segundo o autor, é marcado pelo aumento do conhecimento de novas expressões religiosas e a tendência de estudos científico-racional em detrimento de estudos dogmáticos sobre o fenômeno religioso. Frank Usarski (2014) faz breve descrição do interesse crescente sobre estudos das religiões. O autor recorda que os avanços tecnológicos encurtaram as fronteiras que separavam os povos e suas culturas. Embora os primeiros estudos possuam uma característica apologética, o autor lista obras de cunho teológico, mas também trabalhos alternativos até chegar em autores gregos, chineses e muçulmanos. O grande salto sobre a aquisição do conhecimento religioso ocorreu por volta do século XVII com o progresso filológico. Desse século em diante surgem dicionários, gramáticas, traduções de textos sagrados, decodificação dos hieróglifos egípcios e outros esforços na busca da apreensão do objeto de conhecimento.

O autor trata um panorama da Ciência da Religião na transição do século XIX para o século XX e sua consolidação como disciplina autônoma desde a influência de pensadores da antiguidade. Usarski (2014) afirma a importância do conceito de “religião” ter se libertado da identificação com uma determinada hierarquia religiosa. Essa constatação serviu tanto para consolidar como para conferir um ethos cultural sobre o estatuto da Ciência da Religião. Os precursores da disciplina se deveria ao legado grego de Tales, Anaximandro, Xenófanes, destacando entre outros, Evêmero. Rumo a uma lascização que o espírito moderno reivindicava emergiram intelectuais leigos como Jean Bodin que privilegiou a razão, Edward Herbert de Cherbury que se recusava a aceitar referências religiosas, Bernard Bovier de Fontenelle encorajando a ver a religião através de estudos psicológicos. Segundo o autor muitos outros podem ser arrolados durante a escalada sobre estudos da religião como Giambattista Vico, Charles de Brosses, David Hume, Rousseau, Kant, Schleiermacher, Hegel, Schopenhauer e intelectuais que formavam o chamado “círculo de Göttingen.

Para Usarski (2014) as contribuições desses intelectuais foram seminais para consolidar o termo Ciência da Religião. Segundo o autor, essa postura secularizada é responsável pela criação de uma consciência disciplinar, aperfeiçoou o nome da disciplina – o que contribuiu para que essa deizasse de ser vista como um termo vago, fundando o caminho da institucionalização. A institucionalização teve início com o trabalho de Miller. Apesar dos esforços da Teologia para desqualificar a emancipação da Ciência da Religião, o período conhecido como as décadas formativas levou em 1873 o surgimento da primeira cátedra em História geral das religiões e em 1877 surgem mais quatro cátedras. Em 1879 a França funda sua primeira cátedra e em 1884 a Bélgica mostra seu interesse pelos estudos das religiões separados da teologia tradicional. A Grã-Bretanha em 1904 e Alemanha funda sua primeira cátedra em 1910.


Além dos surgimentos das primeiras cátedras de estudos sobre as diversas religiões houve o interesse de estudos científicos dos escritos de outras religiões. Foi nesse momento que se desenvolveu o trabalho filológico de vários eruditos que traduziram textos sagrados do Hinduísmo, Budismo Confucionismo, Taoísmo, Zoroastrismo, Jainismo e o Islamismo. As traduções desses textos permitiram que essas expressões religiosas fossem conhecidas no mundo e o ensino fosse sistematizado. Compêndios, manuais, Enciclopédias e dicionários foram organizados e disponibilizados aos pesquisadores para alargamento de sua visão sobre as religiões. 


Numa tradição de segunda ordem muitas publicações surgiram como clássicos dos estudos sobre religiões. O proeminente trabalho desses intelectuais, segundo o autor, teve na obra de Müller o caminho metodológico da linguagem neutra em assuntos religiosos, a organização da disciplina além da divisão em dois ramos de estudo: o das formas históricas e outro mais explicativo. O estudo comparado sem preconceitos foi tarefa-chave desses intelectuais. Para o autor, apesar dos avanços, da crescente receptividade acadêmica, aumento de cursos e ofertas, a internacionalização da Ciência da Religião ocorre de maneira diferente. Contudo, a dinâmica da Ciência da Religião cria novos horizontes para a pesquisa e manifesta a heterogeneidade de povos, culturas e religiões.


REFERÊNCIAS


[USARSKI. Frank. História da Ciência da Religião. São Paulo: PUC, 2014 - Revista Ciber Teologia: Teologia & Cultura, Ano X, n. 47, p. 139-150]


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